Uma câmera na mão e um cocar na cabeça


Por Juliana Tiraboschi, da Redação Yahoo! Brasil, do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso*

No meio dos índios dançando, um deles segura uma câmera profissional na mão e registra cada momento da festa de sua aldeia. A cena pode causar estranhamento em quem tem aquela ideia “romântica” de que índio que é índio vive como antigamente e não usa utensílios produzidos pelo homem “branco”.

Ledo engano. Hoje em dia, várias etnias indígenas aproveitam as tecnologias modernas justamente para registrar, armazenar e aprender sobre as danças, as músicas, as histórias e todos os outros elementos que fazem parte de sua cultura ancestral.

O índio que filmava a dança dos companheiros é Kamatxi, da etnia Ikpeng. O jovem de 22 anos participou de oficinas de vídeos promovidas pelo Instituto Catitu, de São Paulo, e acaba de lançar seu primeiro filme como diretor. “Som tximna yukunany”, ou “Gravando som”, em português, é um documentário que começou a ser filmado em 2008 e retrata a festa do Yumpuno, o momento mais importante do Moyuo, rito de passagem que marca o momento em que as crianças (principalmente meninos) começam a ingressar na vida adulta.

O ponto alto do ritual é quando os garotos têm o rosto tatuado com espinho de tucum e uma mistura de carvão e resina de jatobá. O filme é co-dirigido por Kanaré Ikpeng e tem a participação de Mari Corrêa, coordenadora do Instituto Catitu. O DVD é acompanhado do CD Yumpuno Eremri, que reúne 35 cantos do ritual de iniciação.

Durante a produção do documentário, os diretores visitaram a TV Cultura, em São Paulo, para ver como a emissora organiza seus arquivos.

Kamatxi diz que toda a comunidade gosta e participa das filmagens e se diverte com as reações: “Os velhos acham que quando eu estou filmando eu já estou editando, quando acabo de gravar eles já querem ver pronto”, afirma. O cineasta, que gosta de assistir a filmes “não-indígenas” de guerra e ação, diz que tem vontade de continuar trabalhando e quer produzir um vídeo que conte o mito da ressurreição dos Ikpeng. A história conta que o povo foi enviado para debaixo da água por causa de um feitiço de um macaco gigante e trazido de volta à vida pelo trabalho de um dos pajés da aldeia.


Foto de Juliana Tiraboschi, da Redação Yahoo!

Esse é o quarto filme produzido pelos Ikpeng. Entre eles estão “Das crianças Ikpeng para o mundo” (de Karané Ikpeng, Kumaré Ikpeng e Natuyu Yuwipo Txicão), uma vídeo-carta em que meninos e meninas da etnia apresentam sua aldeia em resposta a um filme realizado com crianças de Sierra Maestra, em Cuba, e “Pïrinop, meu primeiro contato” (de Mari Corrêa e Karané Ikpeng), que conta como foram os primeiros encontros desse povo com os brancos. Juntas, as produções ganharam mais de 24 prêmios nacionais e internacionais.

Museu Ikpeng
Durante o lançamento do documentário, festejado no último fim de semana na aldeia Moygu, no Parque do Xingu, no Mato Grosso, também foi inaugurada a Mawo – Casa de Cultura Ikpeng. O espaço servirá como base de registro e pesquisa sobre a cultura Ikpeng. Para isso foi criado o banco de dados digital Ukpamtowonpïn (Origem do Mundo), que reunirá material histórico sobre o povo, como imagens, vídeos, textos, desenhos e mapas. No local serão realizadas oficinas de formação audiovisual e iniciação digital.


Foto de Juliana Tiraboschi, da Redação Yahoo!

Para a professora Maria Cristina Troncarelli, que desde 1984 realiza trabalhos no Parque Indígena do Xingu e já coordenou diversos cursos de formação de professores indígenas, esse tipo de projeto cultural é uma oportunidade de mergulhar na própria cultura, e ferramentas como a internet ajudam em pesquisas sobre temas diversos do interesse dos índios. “Mas é importante que esse uso venha acompanhado de uma discussão sobre a oralidade, sobre as formas tradicionais de aprendizado, para que isso não se perca”, diz.

Kumaré Txicão, chefe de posto pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e coordenador da área de saúde dos Ikpeng, reforça a ideia de que um índio com um aparelho eletrônico na mão não perde sua identidade. “Os jovens usam tocador de MP3 e celular para gravar entrevistas com os mais velhos, para trabalhos na escola, ou para gravar os cantos nas festas e ouvir depois”, diz. Kumaré, que também é presidente da Associação Indígena Moygu Comunidade Ikpeng, criada para fortalecer a preservação da cultura, do meio ambiente e da fiscalização em torno da área do parque, para evitar invasões, é enfático: “A tecnologia não vem para atrapalhar, mas para ajudar, para valorizar”.


Foto de Juliana Tiraboschi, da Redação Yahoo!

Quem são os Ikpeng?
O povo Ikpeng vive no Parque Indígena do Xingu (MT) desde 1967, levados pelos irmãos Villas Bôas. O primeiro contato com os brancos ocorreu em 1964. Na época, viviam às margens do rio Jatobá, próximo ao Xingu. Ameaçados por garimpeiros e dizimados por doenças, eram apenas 52 quando foram transferidos para o parque. Hoje, chegam a cerca de 450 indivíduos.

Atualmente os Ikpeng lutam para retornar para seu local de origem, fora dos limites do parque. Esse desejo foi o combustível das discussões sobre a identidade e valorização cultural, que culminaram nos projetos para preservar seu patrimônio.

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