Índios urbanos, o outro lado da aldeia


do site Brasil de Fato

Entre aldeias e favelas, São Paulo abriga mais de 12 mil indígenas de 20 etnias

 

Heloisa Bio Ribeiro

de São Paulo (SP)

 

Com a responsabilidade de zelar pelas máscaras que representam os espíritos indígenas encantados, o líder comunitário Bino Pankararu venceu uma prova de fogo durante o último incêndio que se alastrou pela favela Real Parque, em São Paulo.

Entre o risco de perder os móveis da família ou as máscaras sagradas do ritual do Toré, ele não teve dúvidas e carregou, uma a uma, as pesadas peças da cerimônia para longe do barraco.

Apesar das precárias condições de vida, os pankararu ainda se reúnem para cultuar os Encantados na favela, entoam cantos, cobrem o corpo com os praiás – as máscaras que incorporam os espíritos – e dançam ao som do maracá. Para além do folclore, a expressão do Toré mantém viva sua cultura e ajuda a definir a identidade do grupo aonde quer que ele esteja.

O debate sobre os direitos indígenas fora de seu território original é cada dia mais atual. Estima-se haver mais de 50 mil índios vivendo nas cidades brasileiras, dentro do universo de 720 mil índios do país, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os pankararu somam 1,6 mil pessoas em São Paulo, principalmente na favela Real Parque, no Morumbi, e compartilham a história da migração indígena com mais 19 etnias que se fixaram no município paulista e seus arredores.

Em meio à população urbana da metrópole, há mais de 12 mil indígenas, distribuídos nas comunidades de baixa renda e em quatro aldeias guarani. Nesse cenário, buscam reconhecimento a partir de características culturais próprias que os distinguem da sociedade nacional, afastando a imagem de que o índio pertence à mata e deve permanecer na aldeia, distante da sociedade não indígena.

 

Estabelecimento

Em sua maioria originária do Nordeste, chegaram a São Paulo após casos de invasão de suas terras, dificuldade de produção de alimentos, e, até, carência de oportunidades de educação e saúde nas aldeias. Coincide com a construção do estádio do Morumbi, por exemplo, o estabelecimento dos primeiros pankararu à margem do rio Pinheiros, ainda na década de 1950. A viagem de 2,2 mil km da aldeia de Brejo dos Padres, em Pernambuco, até o centro urbano, foi empreendida, primeiro, pelos homens, que sobreviveram da renda na construção civil, e foi seguida pela chegada de suas famílias e da fundação da Vila da Mandioca, hoje, Real Parque.

“A cultura não morre se não deixarmos, e aprendi com meu pai que precisamos brigar para sermos vistos”, expressa Dora Pankararu, filha de Bino e, hoje, presidente da Associação SOS Pankararu, que busca soluções para os problemas da favela, como moradia e saúde, mas, também, o tratamento diferenciado para os índios urbanos.

Essa resistência abriu as portas, em 2002, para que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o órgão do governo federal que atende à saúde indígena, reconhecesse algumas etnias que vivem no meio urbano, tornando garantido seu atendimento básico, com oferta de medicação, consultas e cirurgia. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também presta apoio aos estudantes e prevê assistência emergencial em casos de retorno à aldeia.

“Mas, muitos não entendem a dificuldade do índio em viver na favela. As garantias sociais se tornaram um jogo de empurra-empurra. Para outras etnias, como os krenak ou terena, a conquista de direitos vem sendo fruto de muita pressão”, afirma Dora. Segundo ela, o reconhecimento dos pankararu esteve ligado a alguns fatores como o nível de organização, a manutenção da história viva e a união em torno de uma causa única.

 

Ontem e hoje

Preservar os traços culturais é desafio mesmo para as etnias que ainda vivem em aldeias, como os guarani mbyá das aldeias Tekoá Itu e Tekoá Pyiaú, do pico do Jaraguá, e das aldeias Tenonde Porã e Krukutu, da região de Parelheiros. No Jaraguá, a menor aldeia do Brasil (2,7 hectares) sofre com as pressões por reintegração de posse, a construção do trecho oeste do Rodoanel e a inserção de projetos imobiliários na região.

Nesse bairro, a presença indígena remonta ao século 16, e a língua guarani ainda é falada e ensinada no centro de educação bilíngue construído ali, pois existe dificuldade em se aplicar o modelo não indígena das escolas públicas no ensino dentro da aldeia. A religiosidade e a produção artesanal estão entre os principais elementos da resistência guarani, já que a terra não pode ser mais fonte de sobrevivência.

“Grande parte da sociedade reforça a ideia discriminatória de que a cidade grande não é espaço para as populações tradicionais. Mas os povos que vivem em área urbana não deixam de ser indígenas por esse fato”, defende Benedito Prezia, coordenador da Pastoral Indigenista de São Paulo e autor do livro Índios em São Paulo, ontem e hoje.

 

Inclusão

Ele participa de um importante programa para a inclusão de jovens no sistema de ensino superior no país. A semente foi lançada em 2001, numa parceria com a Pontifícia Universidade (PUC) de São Paulo e as comunidades indígenas da capital.

Hoje, o Programa Pindorama tem formado 38 indígenas de nove etnias em cursos como engenharia, direito, enfermagem, serviço social, ciências sociais, pedagogia e mídias digitais. “Traz perspectiva de futuro e é uma via de dupla mão, em que os formados devolvem o saber para a comunidade”, reforça Prezia.

Foi o caso da jovem Jaciara Augusto Martim, filha de pai krenak e mãe guarani, para quem o curso de serviço social oportunizou o trabalho na ONG Nossa Tribo, coordenada pela fotógrafa Rosa Gauditano, que desenvolve iniciativas para ampliar a comunicação entre os povos tradicionais e os não indígenas.

“Na ONG, aprendi a montar projeto, produzir relatório, entender os editais de cultura, sempre com a ideia de desenvolver uma ação na aldeia onde vivo”, diz Jaciara. Em 2009, seu projeto “Troca de Saberes” foi aprovado pelo Ministério da Cultura e ela conseguiu recursos para colocar em prática um sonho de intercâmbio cultural entre o povo do Pico do Jaraguá e outras etnias.

Jaciara levou as crianças guarani para conhecer os xavante no Mato Grosso, e se surpreendeu com o resultado. “Perceberam o quanto ainda são fortes culturalmente, mesmo próximos da cidade, e despertaram, com o xavante, para o espírito de luta em prol da identidade”.

 

 

Etnias da metrópole paulistana

 

Pankararu (vários bairros e cidades da Grande são Paulo)

Pankararé (vários bairros e Osasco)

Atikun (zona norte)

Guarani Mbyá (Jaraguá e Parelheiros)

Guarani Nhandeva (zona leste)

Tupi-Guarani (Guarulhos)

Kaingang (zona leste)

Pataxó (Guarulhos)

Potiguara (São Miguel, Santo Amaro, Guarulhos)

Fulni-ô (zona norte, Carapicuíba)

Xukuru (zona sul)

Xukuru-Kariri (Osasco)

Terena (Mogi das Cruzes, zona norte)

Kariri-Xokó (zona norte)

Kaimbé (Ferraz de Vasconcelos e vários bairros da capital)

Xavante (alguns bairros)

Tupinambá (zona leste [Vila Curuçá zl e Brasilandia zona norte])

Kapinawá (zona leste)

Kaxinawá (centro)

Karajá (zona sul)

[Kaiapó (zona norte)]

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7 respostas para Índios urbanos, o outro lado da aldeia

  1. Iberê-Uaná Sassá Tupinambá disse:

    Os dados apresentados são contestáveis, segundo o proprio Marcio Meira, em palestra na USP, no dia 12 de novembro de 2010, ha uma estimativa de 1,2 milhoes de indigenas e cerca de 700 mil vivendo nas cidades. O presidente da FUNAI está aguardando os dados do IBGE para oficializar os numeros da FUNAI.

    Em 2009, os Kaimbé apresentaram numa justificativa, onde pediam apoio para o site de sua organização aqui em Sao Paulo, falam de 66 mil indigenas na Grande São Paulo, sendo que pelomenos 50% desses residindo na capital, ou seja, mais que o dobro do que foi apresentado no texto do Brasil de Fato.

    Ja os dados sobre Tupinamba morando aqui no estado de Sao Paulo, consegui por persistencia, encontrar algumas familias e obter informação da existencia de muito mais Tupinambas vivendo por essas terras e chegamos a uma estimativa de 4 mil tupinambas aqui em sampa, todos oriundos da Bahia, sabe-se de tupinambas do PA e CE na região do ABC. Estou ainda fazendo o levantamento, mas sem tabular os dados ainda.

    Esse vai e vem de indigena, entre as periferias das grandes cidades, principalmente Sao Paulo e as aldeias de origem é um fenomeno social que precisa de maior atenção, tanto pelo ponto de vista governamental, para elaboração de politicas que atendam as necessidades desses povos, quanto do ponto de vista social e político esquerdista, pensando na luta/causa indigena como luta de classe.

  2. Eric disse:

    Acho que na medida do possível sempre é aconselhável passar o link, que neste caso é http://www.brasildefato.com.br/node/5348.

  3. Rivaldo Ferreira Alves disse:

    Esta é uma excelente portunidade de contruirmos uma maior integração entre parentes, tanto nas aldeias como os destribalizados como meus avôs! e construirmos uma resistencia contra o mal maior que é o modelo ocidental capitalista! participo do movimento de saúde pública em SP e espero contribuir de alguma forma.

    • Rivaldo, em novembro o presidente da FUNAI, fez uma palestra na USP e reconheceu que a população indigena brasileira é de 1,2 milhões, e que cerca de 60% dessa população residem em area urbana, fora das aldeias e Terras Indigenas. Temos que prestar atenção num fator, os dados que o presidente da FUNAI passou, é gerado pelo censo do IBGE, e não é a população real, já que o critério é a autodeclaração, assim, muitos indigenas que estão na cidade não se declaram como tal. A legislação brasileira reconhece indigena até a quinta geração, ou seja, tem muitos indigenas que não declaram, por dois motivos basicos, um é por questões de discriminação, preconceito e racismo, a fim de evitar ser vitima e o segundo é por ter perdido o elo entre o seu povo de origem. O primeiro caso apontado está sendo superado e cada vez mais há mais indigenas se autodeclarando, já o segundo, acredito que deveria ser recorrido a tecnologia da medicina, com DNA.

      Em São Paulo existe um tipo de conselho de saúde indigena, caso queira conhecer, nos mande email.

  4. graça grauha disse:

    Estimados(as) guerreiros9as) do campoflorestacidade: primeiramente quero dizer que este blog aé parte das minhas leituras indispensaveis para entender o meu lugar no mundo. Sou potiguara originaria do RN. Estou em São Paulo fazendo um posdoutorado em literatura e direitos indígenas e o que venho estudanndo vai ao encontro dessa materia que só vem enriquecer os nossos conhecimentos. Concordo que devemos olhar com desconfiança para o mascaramento dos numeros mostrados pelo Ibge e pela Funai. na verdade, fazemos parte de uma multidão de invisíveis; só nos enxergam mesmo aqueles(as) que acreditam em nossa luta. Mas acredito que apesar do sufoco que atravessamos ao longo de 500 anos, estamos conseguindo mostrar a nossa cara, soltar a nossa voz. Parabens pelo blog. Que Ñanderu/Deus/Tupã nos acolha.
    Saudações indígenas
    Graça Graúna

  5. graça grauna disse:

    Nno corre-corre digitei erradamente o meu nome. O correto é: graça grauna
    Saudações indígenas
    Graça Graúna

  6. mery vania veloso cardoso disse:

    gostei muito do blog,mas gostaria de saber a estatistica do indio em 2010em nivel de Maranhão e tambem em nivel de Brasil.fico muito grata se me mandar esses dados.
    eu agradeço de coração se for urgente por que estou fazendo uma pesquisa e nem na FUNAI eles me foram capazes de dar essas informações.

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