Terra sem lei: prostituição, drogas e violência na maior obra do PAC – 3



André VieiraProstituta e cliente em um bar. Elas dançam, bebem e conversam com “os amigos” antes do programa

Por Maria Laura Neves (texto) e André Vieira (fotos)

Foi em uma briga por causa de terras que Silvia de Alcântara, 25 anos, moradora de Jaci, foi baleada e perdeu o marido, o fazendeiro Adaíldo Araújo da Silva, 49. O casal dormia no quarto de casa quando dois pistoleiros encapuzados desceram de uma moto para matá-los. Do lado de fora da casa, um dos assassinos deu um tiro na janela em direção à cama onde eles estavam deitados, enquanto outro atirou na fechadura da porta da casa. Silvia rolou para o chão ao lado da cama. Ficou encolhida embaixo da janela, fora da mira do atirador. O pistoleiro passou o braço pelo vidro quebrado e deu mais de 20 disparos contra o marido dela, caído no chão do outro lado da cama. Ela ouviu tudo.

Silvia levou um tiro na virilha. A filha dela, Gabriela, 6, tinha acabado de sair da cama do casal quando o crime aconteceu e ouviu os tiros do seu quarto. “Quando os disparos acabaram comecei a ouvir a Gabriela dizer: ‘Mamãe, mamãe’, mas não tive coragem de responder porque não sabia se os assassinos ainda estavam em casa. Depois de algum tempo de silêncio, levantei do chão e fui andando em um pé só até o quarto da Gabriela. Ela estava encolhida no canto da cama e me perguntou o que tinha acontecido. Respondi que bandidos haviam entrado em casa. Os policiais chegaram para me socorrer e ela ficou sozinha em casa. Foi quando viu o padrasto morto”, diz Silvia.

A polícia a levou para o posto de saúde onde conversávamos com a enfermeira plantonista. Ela chegou com as pernas ensanguentadas e, naquele dia, não havia médico de plantão. Enquanto a enfermeira realizava os primeiros socorros, o irmão de Silvia chegou com Gabriela na garupa da moto. A menina chorava e tremia com as mãos juntas, num gesto de oração. Quando teve alta do hospital, Silvia mudou-se para Porto Velho e procura uma vaga para Gabriela na escola.

Os habitantes de Jaci Paraná têm orgulho em dizer que são “filhos do distrito mais antigo de Rondônia”. Mas se entristecem ao constatar que a vila, palco de várias ondas migratórias, não se desenvolveu. Do final do século 19 até e metade do século 20, Porto Velho e Jaci Paraná receberam seringueiros durante o ciclo de exploração da borracha. Nos anos 70 e 80, foi a vez da exploração do garimpo atrair milhares de migrantes. A última grande promessa de desenvolvimento são as usinas do PAC, que devem começar a funcionar em 2012 e empregar muito menos gente do que as obras levaram para lá. Quando Jirau e Santo Antônio ficarem prontas, os homens e seus salários irão embora. Sobrarão as mulheres, as mães e as meninas com seus bebês. Que Jaci, a “deusa-lua”, fique com elas.


O PREÇO DO AVANÇO

As usinas do Rio Madeira devem gerar energia para 20 milhões de casas no país, a partir de 2012. Jaci Paraná sofre influência das duas obras. De acordo com a legislação, os consórcios que estão construindo as usinas (Energia Sustentável do Brasil, de Jirau; e a Santo Antônio Energia, de Santo Antônio) têm de fazer investimentos na região para compensar danos sociais e ambientais das construções. O Ibama estipula os investimentos baseado nas demandas da população local quando concede a licença ambiental. Juntas, as empresas afirmaram destinar R$ 369 milhões a projetos de compensação social para a região. Em Jaci, ampliaram as escolas e o posto de saúde, construíram uma sede administrativa onde funciona o conselho tutelar e cederam instalações para a polícia. Também realizam campanhas de combate à exploração sexual, ao uso de drogas e à violência contra a mulher. Tais investimentos, no entanto, parecem insuficientes ou mal-aplicados. A ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, disse que o governo federal está preocupado com os problemas no entorno das usinas do rio Madeira. Afirmou que uma comissão ministerial foi criada para solucioná-los e evitar que se repitam na construção da usina de Belo Monte, no Pará. “O Brasil precisa de uma licença social, além da ambiental, que prepare as comunidades para receber grandes obras”, diz. Os investimentos deveriam, portanto, ser feitos antes do início da construção e da migração — e não concomitante à obra, como acontece hoje.

http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI237135-17737-5,00-TERRA+SEM+LEI+PROSTITUICAO+DROGAS+E+VIOLENCIA+NA+MAIOR+OBRA+DO+PAC.html

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