Uma Aty Guasu Especial #Eblog


Uma Aty Guasu Especial

do blog Mboiko

Por Egon Heck *

Passo Piraju, à beira do rio Dourados. Um vento forte, de agosto, com um frio cortante. Um céu de pesadas nuvens, deixou o sol se apresentar por pouco tempo. Uma grande Assembleia Kaiowá Guarani, a céu aberto.

Centenas de indígenas e algumas dezenas de aliados, realizaram um dos momentos fortes da luta pela terra, contra a violência e pela garantia dos direitos dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul e do Brasil. Num primeiro momento em pé e depois acomodados sobre uns troncos de palmeiras, os participantes repetiram as cenas seculares da resistência indígena. Pareciam os guerreiros da primeira hora, para quem não tinha tempo ou espaço ruim. Era a guerra, a luta pela vida e pelos direitos. As primeiras Assembleias indígenas nacionais foram assim. Acomodados sobre rústicas madeiras, à sombra das mangueiras, realizou-se a primeira Assembleia Indígena, em Diamantino, no Mato Grosso, em 1974.

Passo Piraju, um lugar emblemático, de retomada, de resistência, de intenso sofrimento, de contínua tensão e ameaça, uma comunidade odiada pela população regional, pois numa invasão e confronto, em 2006, morreram dois policiais. Até hoje alguns indígenas estão em regime de prisão na comunidade. Foi ali, que se realizou, sob a proteção dos Nhanderu, de Tupã e dos espíritos dos guerreiros Guarani Kaiowá, essa Aty Guasu histórica de um povo em caminhada, em retomada de suas terras, esperança e sonhos.

Veja Manifesto da Aty Guasu de Passo Pirajú

Tempo forte de celebração, de memória dos lutadores, dos que tombaram defendendo a terra e os direitos de seu povo. Momento de solidariedade, de denúncia, de sentir o coração e o sangue que pulsam forte nas gentes de cor da terra. Enviar forças aos que estão em retomada e sofrendo forte repressão, como Pyelito Kue e Mbaraka’i, os que estão com ordem de despejo, como Laranjeira Nhanderu, os inúmeros acampamentos à beira da estrada.

Enquanto se realizava o Aty Guasu, e aconteciam os rituais à noite, foram dados disparos de armas de fogo, numa clara intenção de atemorizar os participantes. Esse é o tipo de ação já sofrida constantemente pela comunidade, já denunciada inúmeras vezes, mas que persiste.

No “Manifesto da Aty Guasu de Passo Piraju”, é reafirmada a decisão de continuar a luta pela terra, não aceitar retrocessos, e exigir respostas efetivas dos poderes públicos diante da dramática situação que enfrentam a maioria das trinca comunidades-aldeias Kaiowá Gaurani no Mato Grosso do Sul.

As lideranças, no manifesto reafirmam a firme decisão de recuperarem suas terras “Vamos retomar nossas terras para que nossas matas voltem a nascer e nossos córregos voltem a correr! Jamais vão conseguir nos calar ou fazer com que deixemos nossa luta pela retomada de nossas terras! É um caminho sem volta! Quanto mais nos agridem mais decididos ficamos pela reconquista definitiva de nossos territórios e menos acreditamos nas autoridades. Vamos avançar, nos organizando cada vez mais! Podem passar várias gerações e nosso povo continuará na luta até a retomada de TODAS as nossas terras tradicionais!”.

Também foi enviado um documento às autoridades informando e exigindo providências sobre a absurda violência que sofrem os Kaiowá Guarani na retomada de Pyekuti Kue e Mbaraka’i “Nós, povos Kaiowá e Guarani, reunidos em nossa Aty Guasu, realizada na Terra Indígena Passo Pirajú, município de Dourados, Mato Grosso do Sul, vimos por este documento informar as autoridades competentes, à Polícia Federal, Ministério Público Federal e Entidades e Organizações de direitos humanos que nossos parentes Kaiowá e Guarani do Tekohá Mbaraka´y e Puelito Kuê, município de Iguatemi, neste exato momento, acabaram de retornar à suas terras tradicionais das quais foram atacados nos dias 14 e 15 de agosto deste ano. Que nossos parentes estão agora dentro de sua terra, sitiados e que poderão sofrer violências pelos pistoleiros e fazendeiros da região a qualquer momento”.

A grande Assembleia Kaiowá Guarani será finalizada com um ato publico e passeata pela principal avenida da cidade de Dourados, nesta manhã. Depois todos retornarão às suas comunidades, aldeias e acampamentos, com a certeza de que a luta por seus direitos e suas terras estará fortalecida pelo crescimento da união e proteção de Ñahderu Vusu.

Egon Heck, Campanha Povo Guarani Grande povo. Missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em Dourados, MS.

Fonte: CIMI.

Disponível em:

http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=5753&action=read#

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