Após ameaça de guerra contra índios, Polícia Federal vai investigar fazendeiros de MS


do Midiamax

Éser Cáceres

A Polícia Federal instaurou mais um inquérito sobre o conflito fundiário em Mato Grosso do Sul. Desta vez, a ameaça de ‘guerra contra os índios’ na regiao sul do Estado será alvo da investigação.

O clima é tenso em Paranhos, a 477 quilômetros de Campo Grande, após índios guarani-kaiowá ocuparem fazendas em áreas consideradas terra indígena pelo Governo Federal.

Produtores rurais que possuem propriedades na faixa de fronteira de MS com o Paraguai, onde está a maior parte das terras em disputa, já cogitam partir para o confronto armado com os índios, que chamam as mobilizações de ‘retomada’ das tekohá, como definem, no idioma nativo, o ‘espaço onde se vive’.

“Se o Governo quer guerra, vai ter guerra. Se eles podem invadir, então nós também podemos invadir. Não podemos ter medo de índio não. Nós vamos partir pra guerra, e vai ser na semana que vem. Esses índios aí, alguns perigam sobrar. O que não sobrar, nós vamos dar para os porcos comerem”, dispara ‘Lenço Preto’, como é conhecido Luis Carlos da Silva Vieira.

Ele herdou e produz em uma área a poucos quilômetros da primeira fazenda ocupada. Diz que está convocando os fazendeiros da região para a ‘guerra’. Vieira tem gado na área já ‘retomada’ e diz que a proximidade com o Paraguai facilita a obtenção de armamento, além de admitir que a contratação de pistoleiros paraguaios é uma opção.

O caso está agora sendo conduzido por um delegado da Delinst (Delegacia de Defesa Institucional da Polícia Federal) que já atua com situações envolvendo comunidades indígenas.

Arroyo Corá

No último dia 10 um grupo de aproximadamente 200 índios, incluindo mulheres e crianças, ocupou a fazenda Campina, que fica na tekohá Arroyo Corá. Houve disparos de armas de fogo e os guarani dizem que um homem, de aproximadamente 50 anos de idade, identificado como Eduardo Pires, está desaparecido desde então.

Eles também consideram a morte de um bebê como consequência do ataque. Apesar de o laudo ter apontado causas naturais para o falecimento da menina, Beatriz Centurião, de 20 anos, conta que se desequilibrou no momento em que fugia dos tiros disparados contra os índios e a filha dela, de apenas nove meses de idade, acabou ferida. A menina foi sepultada em Arroyo Corá.

A Funai (Fundação Nacional do Índio) confirmou o confronto. Servidores do órgão estiveram no local com homens da Força Nacional e da Polícia Federal. Cápsulas vazias de diversos calibres foram recolhidas e um inquérito foi instaurado para investigar o episódio a pedido do MPF (Ministério Público Federal).

Segundo a Polícia Federal, a Funai já foi oficiada para ajudar na confirmação da identidade do homem desaparecido. Nos primeiros relatos, o índio chegou a ser confundido com um irmão que acabou localizado na aldeia.

Recentemente, em Aral Moreira, município próximo, o líder indígena Nísio Gomes também desapareceu após um ataque de pistoleiros contra índios na tekohá Guayviry. No começo, a versão dos índios foi questionada e testemunhas chegaram a ser indiciados pela Polícia Federal, que depois admitiu os indícios da morte do indígena.

Dezoito pessoas acabaram na cadeia, incluindo o presidente do Sindicato Rural de Aral Moreira, e houve indiciamentos. Poucos produtores rurais aceitam falar abertamente sobre a situação, com medo de consequências judiciais. “A Polícia Federal tá encima”, diz um proprietário que conversou com a equipe, mas exigiu não ser identificado.

‘Para os porcos comerem’

Entre tantos fazendeiros acuados, que preferem não se envolver publicamente no conflito, ‘Lenço Preto’ fez questão de receber a reportagem e relatou, em entrevista gravada na última quinta-feira (16), como os ruralistas estão se organizando.

O fazendeiro conta que já houve conversas com outros produtores da região e confirma que o conflito armado já é considerado uma opção. Ele diz que a intenção é aguardarem até o final desta semana, para então agirem caso não haja novidades favoráveis.

“A maioria dos fazendeiros está comigo. Arma aqui é só querer. Eu armo esses fazendeiros da fronteira rapidinho, porque o Paraguai fica logo ali, e na guerra não tem bandido”, avisa.

Segundo Lenço Preto, a revolta dos fazendeiros aumentou com a forma como a retomada está acontecendo. “Se viessem numa boa, avisassem a gente, ou se o Governo resolvesse logo, e dissesse que temos de sair mesmo, acho até que a gente podia tirar o gado e aceitar. Mas assim, estão brincando demais com a gente”, diz.

Lavada com sangue

Em Paranhos, produtores rurais contam que já existem fazendeiros maiores desistindo de lutar pela posse da área. Mas afirmam que o sentimento de revolta pode fomentar atos de vingança.

“Tem um fazendeiro conhecido aí da região que falou pra todo mundo aqui: posso até sair, e entregar para os bugres, mas assim que a poeira baixar, eu lavo essa terra de sangue”, relata um dos produtores que falaram com a reportagem.

‘Lenço Preto’ confirma que a contratação de pistoleiros paraguaios é uma opção para os produtores rurais reagirem. “Eu acredito que vai ser por aí. A guerra vai começar aí. Eu, como a propriedade lá não é minha… Se é minha, já tinha índio estendido à vontade aqui”, diz apontando para o campo às margens da rodovia.

A Superintendência Regional da Polícia Federal de MS garante que, mesmo com boa parte dos servidores em greve, está tomando as medidas cabíveis.

“A Polícia Federal está acompanhando de perto a situação de tensão e pretende apurar, de forma imparcial, todos os atos ilegais cometidos tanto por índios como por fazendeiros. Uma equipe de policiais federais está acompanhando todas movimentações e investigando o que ocorreu de fato”, afirma em nota oficial.

Com relação à exigência dos índios de que os fazendeiros retirem imediatamente o gado encontrado nas fazendas ‘retomadas’, a PF afirma que ainda nesta semana, irá acompanhar a retirada dos animais pertencentes aos fazendeiros da região, “assegurando tranquilidade às partes envolvidas”.

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