SOBRE A “CARTA ABERTA À IMPRENSA”, FEITA PELOS INDÍGENAS DE JACAREPAGUÁ EM 23/03/2013


SOBRE A “CARTA ABERTA À IMPRENSA”, FEITA PELOS INDÍGENAS DE JACAREPAGUÁ EM 23/03/2013

Correções

Afirmar que todas as etnias citadas se pronunciam no documento que foi divulgado não é verdade. Apenas o fazem os indivíduos que o assinam, que não costumam consultar as aldeias de seus povos para tomar decisões.
Dauá Puri, por exemplo, não se reuniu uma única vez com os Puri para decidir sobre a Aldeia Maracanã. Não me representa.
O histórico da ocupação é verdadeiro. Mas foi omitido o histórico da negociação, na qual vários indígenas foram excluídos. Nos últimos meses sofremos a interferência direta de órgãos governamentais ou não, que promoveram a realização de reuniões fora da aldeia, com divulgação restrita, apenas com indígenas previamente escolhidos. Isso consta até em ata, e seria facilmente demonstrável se Carlos Tukano não tivesse retirado o livro ata – juntamente com sua própria pessoa – antes mesmo de se esgotar o prazo para a reintegração de posse.

Considerações

Justificar o acordo feito com o governo estadual pelo argumento de se preservar a integridade física das pessoas é questionável. Se os Guarani Kayowa, por exemplo, optassem por não correr risco algum, várias terras de seu povo nunca seriam retomadas. Isso é verdade para todos os povos indígenas que enfrentam fazendeiros e capitalistas em geral. Cabe destacar que pelo Brasil afora nossos parentes enfrentam bala de verdade, sem nenhuma câmera para registrar. Acho vergonhoso que numa das maiores cidades do país alguns indígenas tenham tanto medo de bala de borracha, diante da imprensa nacional e internacional para testemunhar.

Só para informação de todos: encontramos cassetetes, spray de pimenta, bombas de gás e escudos em nosso caminho, mas ninguém morreu ou ficou gravemente ferido. Sofremos a truculência de um governo fascista – e ele terá de responder por isso – mas nossos parentes já passaram por coisa pior.

Se Kunhambebe e seus companheiros fossem se preocupar demais com sua integridade física, ninguém hoje estaria falando em Confederação dos Tamoios (Tamuya, em língua indígena).

Isso tudo colocado, é preciso dizer que os parentes que optaram pelo acordo com o governo estadual tem o direito de escolher seu próprio caminho. Só não tinham e não têm o direito de interferir na escolha do nosso, e não podem escrever a nossa história da maneira que eles querem, omitindo fatos importantes. Além de nossos interesses e de nossas etnias, temos um compromisso com o Grande Espírito – de muitos nomes- que nos colocou nesta terra com algum propósito. A verdade sempre será dita, ainda que muitos prefiram não ouvir.

Espero que os parentes que fizeram acordo com o governo estadual cobrem as promessas que lhes foram feitas, e lutem para que não sejam enganados. Isso também é escrever a história dos povos indígenas neste país, e requer responsabilidade.
Espero também que nos deixem seguir nosso caminho de luta em paz, sem insinuar que somos ingênuos ou irresponsáveis – pois se assim somos por querermos lutar até o fim, então Kunhambebe, Marco Verón, Marçal Tupã e todos os guerreiros que tombaram pela defesa dos direitos indígenas também podem ser acusados da mesma coisa. O que para nós, vale dizer, não é uma vergonha, mas uma honra.

Aldeia Maracanã Resiste!

Com respeito e com firmeza,

Ava’i Ava Jegwa (Daniel Puri)

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