Tributo aos “vândalos” de Cosmópolis


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Crítica ao tratamento dado pela mídia e pelas autoridades aos que incendiaram as cabines de um pedágio no interior do Estado de São Paulo.

Hamilton Octavio de Souza

De repente, assim do nada, uma parte da pacata população de Cosmópolis, na região de Campinas, foi tomada por fúria súbita, incontrolável e passou a agredir com violência a propriedade pública e privada, queimou as cabines de um pedágio e apedrejou a Prefeitura Municipal. O que era um protesto pacífico contra os preços cobrados nos pedágios e a precariedade dos serviços públicos se transformou em ato de puro vandalismo e selvageria, marcado por inúmeras ações criminosas.

Foi basicamente dessa forma que a grande imprensa – as emissoras de rádio e TV, jornais e revistas – abordou os acontecimentos do dia 3 de julho, na pequena cidade do interior paulista. Com um ou outro detalhe a mais, algumas declarações de manifestantes e policiais, mas sempre com ênfase na bestialidade da massa enfurecida, a mídia burguesa e as autoridades demonstraram perfeita sintonia em condenar com veemência os “vândalos” de Cosmópolis. Reprisaram o discurso dominante de que manifestações democráticas precisam ser feitas “pacificamente”.

Nem os veículos de comunicação que noticiaram os fatos nem as autoridades que imputaram toda sorte de ilicitudes aos manifestantes procuraram encontrar no episódio resquícios de racionalidade e justeza, tanto no desenrolar dos fatos do dia como nos antecedentes de curto, médio e longo prazos. Por exemplo, não deram importância ao tratamento dispensado pela Polícia Militar diante dos protestos, geralmente com aquela diplomacia típica que as populações periféricas tão bem conhecem, nem ao fato de que a prisão arbitrária de cidadão, com ofensa aos demais, possa ter servido de estopim para uma mudança de comportamento.

Da mesma forma não se buscou nas raízes mais profundas o descontentamento acumulado ao longo de anos, como, por exemplo, o fato de a cidade ter sido cercada de pedágios caros (média acima de R$6,00 cada um), nas vias de ligação com as cidades vizinhas. Tais taxações impostas aos cidadãos, ano após ano, passaram a se sobrepor com total violência e inconstitucionalidade ao IPVA, IPTU, ITR e outros tributos recolhidos. Afinal, o que antes cobria a construção e manutenção das vias públicas deixou de ter a devida contrapartida, diante de nova extorsão do Estado para a pirataria privada. E jamais passou pela cabeça dos tecnocratas de plantão que os gastos provocados pela dupla taxação pudessem pesar sobremaneira nos bolsos dos trabalhadores e das camadas de menor renda.

De repente, assim do nada, nos últimos vinte anos, os pedágios cercaram boa parte das populações do interior paulista, assim como aconteceu com Cosmópolis. Todos aqueles que circulavam entre as cidades ou mesmo no interior do território de cada município, passaram a ser assaltados por cabines de pedágio. Tornaram-se vítimas dessa violência os estudantes que saem das cidades menores para estudar nas escolas das cidades maiores; os doentes que procuram hospitais com mais recursos técnicos; os sitiantes que vão e voltam todos os dias do seu trabalho; os caixeiros-viajantes na rotina de seu ganha-pão; os pequenos industriais e comerciantes que fazem negócios nas microrregiões; os clientes dos inúmeros serviços oferecidos em cidades vizinhas. Todos foram violentamente prejudicados pela onda privatista neoliberal e pelos caça-níqueis instalados a cada 10, 15 e 20 quilômetros de cada agrupamento humano. Quanto não tem sido sugado das populações dessas cidades para aumentar a riqueza de algumas poucas empresas privadas?

Junto com a extorsão dos pedágios – patrocinada pelos governos estaduais com a cumplicidade dos governos municipais – vieram também outras violências do Estado contra as populações do interior. Para garantir que as concessionárias privadas pudessem ter o máximo de lucro, as autoridades deixaram que as vias vicinais, as estradas de terra, os antigos caminhos tradicionalmente utilizados pela população (por sitiantes, trabalhadores rurais, viajantes a cavalo e carroceiros) ficassem em total abandono e, na maioria dos casos, fossem interrompidos para não cruzar as rodovias pedagiadas. Esses bloqueios impostos com truculência não apenas infernizaram a vida de muita gente, na medida em que tiveram suas rotinas e seus caminhos truncados, mas sobretudo expressaram de forma brutal o vandalismo emanado do Estado, quando alguém decide, faz e acontece sem o menor respeito aos direitos democráticos do povo.

Portanto, não passa de cinismo das autoridades – governador do Estado, ministro da Justiça, presidente da República – e da imprensa hegemônica condenar os “vândalos” de Cosmópolis que queimaram as cabines do pedágio e exigir que o povo se manifeste apenas e tão somente de forma “ordeira e pacífica”. É preciso entender que os protestos de hoje são reações às várias violências sofridas pelo povo, durante anos, praticadas principalmente por um modelo econômico de desenvolvimento que visa muito mais o lucro dos grupos empresariais privados do que o bem estar das comunidades.

A tomada de consciência, o basta, a coragem para deixar de lado a passividade e fazer algo, agora, finalmente, incluem sim não apenas a manifestação “ordeira e pacífica”, mas também os enfrentamentos e os atos concretos contra os símbolos visíveis da violência institucionalizada – que é o prédio da Prefeitura, a cabine do pedágio, a guarita e a viatura da Polícia Militar. Os “vândalos” de Cosmópolis agiram como tantos outros cidadãos brasileiros têm agido, há séculos, diante da cegueira e da surdez dos donos do poder; agiram como todos aqueles que algum dia se colocaram na luta contra a opressão e a exploração, por um país livre, democrático, justo e igualitário.

Quem sabe se os “vândalos” de Cosmópolis não serão reverenciados como heróis do povo? Quem sabe!

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.

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