Anarquismo e Marx


do site Projeto Periferia

Diferente de que é propagado pelas academias, Marx nunca criou o marxismo, mas seus discípulos mais fundamentalistas sempre insiste nesta religião, que trouxe tantos transtornos para a humanidade. Este texto publicado no site do Projeto Periferia nos ajuda a entender a peleja entre os anarquistas (fundamentado por diversos pensadores) e os marxistas (uma religião monoteísta, onde Marx é o unico senhor) que atravessa os séculos.

 

Este trabalho em tradução livre de 
http://flag.blackened.net/rocker/marx.htm 
 pretende esclarecer alguns temas e fatos diretamente
relacionados com problemas que enfrentamos em nossos dias

 

ALGUNS ANOS ATRAZ, depois da morte de Frederick Engels, Mr. Eduard Bernstein, um dos mais proeminentes membros da comunidade marxista, deixou seus colegas atônitos com algumas conclusões que trouxe a público. 

Bernstein tornou públicas suas descobertas sobre a validade da interpretação materialista da história, e acerca da teoria marxista da mais valia e da concentração do capital. Ele foi mais longe atacando o método dialético e concluiu que falar de um socialismo crítico era impossível. 

Cauteloso como era, Bernstein guardou suas descobertas para si mesmo até que o velho Engels morresse; apenas depois disso as tornaria pública, para o conseqüente horror do rebanho marxista. Mas nem mesmo estas precauções o puderam salvar, desse momento em diante passou a ser bombardeado de todas as direções. Kautsky escreveu um livro contra sua heresia, e desde o congresso de Hanover o pobre Eduard foi obrigado a declarar que havia se enganado, que havia cometido um pecado mortal e que se submeteria à decisão da maioria científica. 

Em geral, não havia nada de novo nas revelações de Bernstein. Os argumentos que ele expôs contra os fundamentos do ensino marxista já eram conhecidos mesmo no tempo em que era apóstolo fervoroso da igreja marxista. Os argumentos em questão sempre estiveram pontuados na literatura anarquista e a única observação digna de nota foi que foram eles, [os marxistas] os primeiros a colocar em prática a teoria da social democracia. Nenhuma pessoa negaria que a crítica de Bernstein provocou um inesquecível mal estar no campo marxista. Bernstein estava cutucando a mais importante fundação da metafísica econômica de Karl Marx, e não foi surpresa os mais respeitáveis representantes do marxismo ortodoxo ficarem agitados com o ocorrido. Nenhuma de suas palavras seria levada a sério, se não fosse o fato de que vieram à tona bem no meio de uma importante crise. Faz mais de um século que os marxistas não cessam de difundir a idéia de que Marx e Engels foram os descobridores do chamado socialismo científico; e inventaram uma distinção artificial entre os chamados socialistas utópicos e o socialismo cientifico dos marxistas, uma distinção que existe apenas na imaginação daquelas pessoas. A literatura socialista dos países germânicos foi monopolizada pela teoria marxista, onde cada social democrata agarrava com as duas mãos a 
pureza e a originalidade dos produtos das descobertas científicas de Marx e Engels. Mas esta ilusão também esta caindo por terra: pesquisadores da história moderna chegaram a conclusão que todas estas questões em torno do socialismo científico surgiram única e exclusivamente de velhos socialistas da Inglaterra e da França dos quais Marx e Engels foram adeptos e posteriormente divulgaram estas idéias como sendo suas. Depois das revoluções de 1848 houve uma terrível reação na Europa: A Santa Aliança determinou a necessidade de sufocar o pensamento socialista em cada país onde florescesse. Esse pensamento socialista possuía uma riquíssima literatura na França, Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália. A maior parte desta literatura foi cerceada durante esta era de obscurantismo. 

O processo de destruição sistemática dos trabalhos mais importantes foi tal que acabaram reduzidos a alguns exemplares que encontraram refugio na  tranquilidade de algumas grandes livrarias publicas ou nas coleções particulares  de algumas poucas pessoas. Toda esta literatura foi redescoberta apenas por  volta do fim do século dezenove e começo do século vinte. Pouco tempo atras,  em nossos dias, idéias como estas foram descobertas nos velhos escritos dos discípulos de Fourier – São Simão, ou nas obras de Considerant, Demasi, May e de muitos outros, que tinham a mesma linha de pensamento. Foi nosso velho amigo W. Tcherkesoff que foi o primeiro a ordenar e a sistematizar todos esses fatos: ele demonstrou que Marx e Engels não foram os inventores daquelas teorias que ao longo do tempo lhes tem sido atribuídas como fruto de seu trabalho intelectual; (1) ele demonstrou que não é difícil provar que alguns dos mais famosos trabalhos marxistas como, por exemplo, o Manifesto Comunista, na realidade não passaram de traduções do Francês efetuadas por Marx e Engels. Tcherkesoff saiu vitorioso em sua alegação de que o Manifesto Comunista foi concebido pelo Avanti, o órgão central dos democratas sociais italianos, (2) depois que comparou o manifesto Comunista com o Manifesto da Democracia de Victor Considerant, idêntico ao documento publicado posteriormente por Marx e Engels cinco anos depois. O Manifesto Comunista é considerado como um dos mais antigos trabalhos do socialismo cientifico, mas seus itens foram extraídos dos escritos de um “utópico”, categorização marxista de Fourier aos socialistas utópicos. Esta é uma das ironias mais cruéis que se possa imaginar e certamente é um duro testemunho para a base científica do marxismo. Victor Considerant foi um grande escritor socialista citado por Marx: ele refere-se a Considerand antes mesmo de tornar-se socialista. Em 1842 Allgemeine Zeitung atacou o Rheinische Zeitung do qual Marx era o editor chefe, por julgá-lo simpático ao comunismo. Marx, por sua vez, replicou em um editorial onde declarava o seguinte: “Obras como as de Leroux, Considerant e sobretudo a penetrante obra de Proudhon não podem ser criticadas em um sentido superficial; elas requerem um longo e cuidadoso estudo antes de começar a critica-las”(3). O desenvolvimento intelectual de Marx foi altamente influenciado pelo socialismo francês; mas de todos os escritores socialistas da França, um dos que mais poderosamente influenciou seu pensamento foi P. J. Proudhon. É evidente que foi o livro de Proudhon “Que é Propriedade?” que levou Marx a abraçar o socialismo. Suas observações críticas da economia nacional e das variadas tendências abriram um novo leque no mundo de Marx e a mente de Marx ficou muito impressionada, sobretudo, com a teoria da mais valia tal qual foi apresentada originalmente pelo inspirado socialista francês. Em Proudhon encontramos as origens da doutrina da mais valia, esta grande “descoberta científica” da qual nossos marxistas tanto se gabam. Tal teoria já estava claramente delineada nos escritos de Proudhon. Foi graças a ele que Marx tornou-se celebrizado. Segundo as últimas pesquisas efetuadas pelos socialistas ingleses Bray e Thompson, a participação de Marx na teoria da mais valia restringiu-se a adulterá-la. Marx reconheceu o elevado significado científico da obra de Proudhon, e em um livro especial, que hoje em dia se encontra bem longe dos prelos, ele qualifica a obra de Proudhon “Que é Propriedade?” como “o primeiro manifesto científico do proletariado francês”. Este trabalho não foi reimpresso pelos marxistas, nem foi traduzido  em outras línguas, embora os representantes oficiais do marxismo façam todos  
os esforços para distribuir os escritos de seus mentores em todas as línguas.  

Este livro foi esquecido e por uma simples razão: sua reimpressão poderia  revelar ao mundo o colossal nonsense e a irrelevancia de tudo quanto Marx  escreveu depois acerca daquele eminente teórico do anarquismo. Marx não  foi apenas influenciado pelas idéias econômicas de Proudhon, ele também  foi influenciado pelas teorias anarquistas do grande socialista francês, tanto  que em uma de suas obras desta época ele ataca o estado da mesma forma que  
Proudhon o fez. 

II.  
 

“o livro de Proudhon ‘Que é Propriedade’ foi
o livro que o converteu [Marx] ao socialismo”

Todo aquele que estudou seriamente a evolução de Marx enquanto socialista concordará que o livro de Proudhon “Que é Propriedade” foi o livro que o converteu ao socialismo. Aqueles que não tem um exato conhecimento dos detalhes desta evolução e aqueles que não se deram ao trabalho de pesquisar os primeiros trabalhos socialistas de Marx e Engels, notarão algo estranho e fora de contexto. Porque em seus últimos escritos Marx fala de Proudhon pejorativamente e de forma grotesca e estes são os escritos que a social democracia toma como verdade e os usam para publicar e republicar vez após vez. Dessa maneira, pouco a pouco, foi se formando a crença de que Marx foi um adversário teórico de Proudhon, igualmente também surgiu a idéia de que nunca houve nada em comum entre eles. E, para falar a verdade, é impossível acreditar em outra coisa quando se dá uma olhada na forma como ele trata Proudhon em seu famoso livro A Pobreza da Filosofia, no Manifesto Comunista, ou no obituário publicado emSozialdemokrat em Berlim, logo após a morte de Proudhon. Em A Pobreza da Filosofia Marx ataca Proudhon gratuitamente alegando que as idéias de Proudon não tinham estrutura e que ele não se qualificava nem como socialista nem como critico de política econômica.  

“Mounsier Proudhon . . . teve a desventura de ser peculiarmente incompreendido na Europa. Na França, ele teve o direito de ser um economista ruim, por ter a reputação de bom filosofo alemão. Na Alemanha, ele teve o direito de ser um mau filósofo por ter a reputação de ser um dos melhores economistas franceses. Sendo portanto alemão e economista ao mesmo tempo, nós protestamos contra esse duplo erro (4)”. E Marx segue em frente: sem apresentar nenhuma prova, passa a acusar Proudhon de ter plagiado as idéias do economista inglês Bray. Ele escreveu:  “No livro (5) de Bray acreditamos que descobrimos a chave de todo o passado, presente e futuro das obras do Monsieur Proudhon.” É interessante flagrar Marx, que usou descaradamente as idéias de outras pessoas a ponto doManifesto Comunista ser nada mais nada menos que uma cópia do Manifesto da Democracia de Victor Considerant, acusando outras pessoas de plágio. NoManifesto Comunista, Marx qualifica Proudhon como um conservador, um burguês típico (6). E no Obituário que ele escreveu para a Sozialdemokrat(1865) encontramos as seguintes palavras: “Na estrita história científica da política econômica “O Que é Propriedade?”seria indigno de menção. Trabalhos sensacionalistas como estes referem-se ao mundo das ciências, como se fosse o mundo das novelas.” 

Ainda neste obituário Marx reiteradamente proclama que Proudhon é fraco como socialista e como economista, uma opinião que ele já tinha expressado anteriormente em A Pobreza da FilosofiaNão é difícil de compreender que alegações como estas, dirigidas contra Proudhon por parte de Marx, tinham por objetivo apenas e tão somente espalhar a crença, ou mesmo a convicção, de que absolutamente nenhum campo comum poderia existir entre ele e o grande 
escritor francês. Na Alemanha, Proudhon era totalmente desconhecido. As edições alemãs de sua obra, por volta de 1840, não foram impressas. O único de seus livros republicados em alemão foi Que é Propriedade? e mesmo assim sob restrita circulação. Estes fatos contribuíram para que Marx ocultasse todos os traços de seu primitivo desenvolvimento como um socialista. Nós já vimos sobre como sua atitude para com Proudhon foi bem diferente no começo, e as conclusões que vieram depois apenas reforçam nossos argumentos. Como editor em chefe do Rheinische Zeitung, um dos mais famosos periódicos da democracia alemã, Marx referiu-se a Proudhon como o mais importante escritor socialista francês, num momento em que ainda não tinha nem mesmo abraçado a causa socialista. Já mencionamos quando se refere a Victor Considerant , Pierre Leroux e Proudhon e ali não há dúvida alguma de que Considerant e Proudhon foram os mentores que o trariam ao socialismo. Sem dúvida alguma, “Que é Propriedade? foi o trabalho que maior influencia exerceu sobre o desenvolvimento de Marx como um socialista; tanto que, no periódico mencionado, ele proclama o inspirado Proudhon como “o mais consistente e convincente dos escritores socialistas” (7). Em 1843, o censor Prussiano silenciou o Reinische Zeitung; Marx deixou o país e foi durante este período que começou a trilhar os caminhos do socialismo. Este fato é relatado em suas cartas ao famoso escritor Arnold Ruge e mais ainda em sua obra: “The Holly Family, of a Critique of Critical Criticism”, que ele publicou conjuntamente com Frederick Engels, livro que aparece em 1845 com a finalidade de argüir contra a tendência levantada pelo pensador alemão Bruno Bauer (8). Além de assuntos filosóficos, o livro também referia-se à economia política e ao socialismo, especialmente nas partes que diz respeito ao anarquismo. De todos os trabalhos publicados por Marx e Engels, “The Holy Family” é único que não foi traduzido para outros idiomas e que os socialistas alemães não reimprimiram. Na verdade, Franz Mehring, Marx e o executor literário de Engels, o fizeram, atendendo a um pedido do partido socialista alemão, e publicaram The Holy Family juntamente com outros escritos dos primeiros anos como socialista ativo, só que isso foi feito sessenta anos depois e foi o primeiro a fazer essa referencia, além de tudo, tal publicação foi dirigida a especialistas, pois era coisa muito cara para um trabalhador ter acesso. Fora isso pouca coisa se sabe na Alemanha sobre Proudhon, o fato é que existe um abismo entre a primeira opinião que Marx expressou a respeito dele e o que ele dizia no final. Alem de tudo o livro claramente demonstra o desenvolvimento do socialismo de Marx e a poderosa influencia que Proudhon exerceu sobre este desenvolvimento. Em The Holy Family, Marx relata que Proudhon teve todos os méritos que os marxistas posteriormente creditaram a si próprios. Vejamos o que ele [Marx] diz a esse respeito na pagina 36: “Tudo que diz respeito à política econômica está escorado na propriedade privada. Esta premissa básica é para eles um fato incontestável ao qual eles não dedicam nenhuma investigação séria, referem-se a ela apenas ‘ACIDENTALMENTE’, como Say a contragosto admite (9)Mas Proudhon faz uma investigação crítica de primeira ordem, radical, e ao mesmo tempo, uma investigação científica da base da economia, a PROPRIEDADE PRIVADA. Este é o grande avanço cientifico que ele proporcionou, um avanço que revoluciona a economia política, pela primeira vez torna possível uma real ciência de economia política. ‘Que é a Propriedade’ de Proudhon é tão importante para a moderna economia política como a obra de Sieyes ‘O Que é o Terceiro Estado’ é importante para a política moderna.” 

Em The Holy Family Marx qualifica Que é Propriedade? como a primeira analise científica da propriedade privada e que ela acenava com a possibilidade de se construir uma ciência verdadeira fora do âmbito da economia nacional; mas em seu tão bem conhecido obituário para a Sozialdemokrat o mesmo Marx alega que na historia estritamente cientifica da economia tal obra seria indigna de menção. Quantas mentiras estariam por traz de contradições como estas? 

Isso é uma das muitas coisas que os representantes do tão propalado socialismo científico tem que esclarecer. Na realidade existe apenas uma resposta. Marx procurou conciliar o que tinha como o que pretendia. 

Todos aqueles que estudaram essa questão e o fizeram à parte de lealdades partidárias concluíram que tal explanação não é fantasiosa. Mas vamos ver novamente o que Marx tinha a dizer sobre o significado histórico de Proudhon. Na pagina 52 da mesma obra Marx escreve: “Proudhon não escreveu apenas no interesse do proletariado, ele foi um proletário, um ‘ouvrier’. Sua obra é um manifesto científico do proletariado francês.”  Aqui, como podemos ver, Marx faz questão de qualificar Proudhon como um expoente do socialismo proletário e que sua obra representa um manifesto cientifico oriundo do proletariado francês. Por outro lado, no Manifesto Comunista ele assegura-nos que Proudhon é a encarnação do conservadorismo, e do socialismo burguês. Poderia haver um contraste maior? Em quem devemos acreditar? No Marx de The Holy Family ou no “autor”
do Manifesto Comunista? E como surgiu essa discrepância? Esta é uma pergunta que fazemos para nós mesmos novamente, e naturalmente a resposta é a mesma que a anterior: Marx queria demonstrar perante todos unicamente aquilo que ele sentia por Proudhon e isso significa que para atingir esse fim qualquer coisa servia. Não existe nenhuma outra explicação possível; Marx posteriormente usou da mesma tática para contestar Bakunin o que evidenciou que ele nunca foi lá muito escrupuloso em suas preferências. “A contradição entre o propósito e a boa vontade da administração, por um lado, e os meios e possibilidades, por outro, não podem ser abolidos pelo estado sem que antes este abola-se a si mesmo, nisto baseia-se sua contradição. O estado é baseado nas contradições entre a vida pública e a vida privada, nas contradições entre o interesse geral e interesse privado. A administração tem que confinar-se a si mesma em uma atividade formal e negativa. Quando seu trabalho começa a existir para a vida civil o poder da administração termina. Confrontados pelas conseqüências que nascem da natureza não social da vida civil, o relacionamento privado, o comércio, a indústria, todo o vai-e-vem dos mais variados círculos de cidadãos, confrontados por todas essas conseqüências, a lei da natureza da administração é a impotência. A fragmentação, ausência de base, escravidão, resultou nesta sociedade civil, base onde o moderno estado repousa, da mesma forma que a sociedade civil da escravidão foi o fundamento natural em que a velha sociedade estatal repousou. A existência do estado e a existência da escravidão são inseparáveis. O velho estado e a velha escravidão, tradicionalmente opostos foram intimamente concebidos para ajudar um ao outro, da mesma forma que o moderno estado, o moderno mundo comercial, e seus hipoteticamente críticos opositores Cristãos.” 

Esta é, essencialmente, a interpretação anarquista da natureza do estado, que parece inteiramente fora do contexto dos contemporâneos mestres de Marx, é uma prova clara das raízes anarquistas de sua primeira evolução socialista. O artigo em questão reflete os conceitos da critica de Proudhon ao estado, uma crítica que apareceu pela primeira vez em seu famoso livro Que é Propriedade? Este trabalho imortal teve uma influencia decisiva no desenvolvimento do comunismo alemão, acrescente-se a isto o fato de que ele fez muitos esforços e não pelo método nobre de apagar seus primeiros dias de suas atividades socialistas. Naturalmente, nisto seus discípulos não vacilaram em seguir seu mestre e desta forma a visão do erro histórico das primitivas relações entre Marx e Proudhon se desenvolveram gradualmente. Especialmente na Alemanha, onde Proudhon era menos conhecido, reinou a mais completo silencio sobre a relevância e a importância da obra do velho escritor socialista francês, isso explica porque o denominado socialismo cientifico das escolas marxistas se contrapõe ao “utópico” e relega outros fatores importantes. Esse denominado socialismo cientifico empenhou-se por esconder a literatura socialista dos primeiros períodos. 

Um dos mais importantes mestres de Marx, onde ele estabeleceu seus fundamentos para seu subsequente “desenvolvimento” não foi nenhum outro senão Proudhon, o anarquista tão desprezado e incompreendido pêlos socialistas legalistas. 

III 

 

“o socialismo criativo foi quebrado por um novo dogmatismo ferrenho que proclamava possuir um completo conhecimento da realidade social, mas que na verdade se constituía em mais um embrulho de sofismas entulhados de uma fraseologia teológica e fatalista, determinada a se constituir na tumba de todo o pensamento genuinamente socialista”

Os escritos políticos de Marx oriundos deste período, por exemplo, o artigo que ele publicou em Vorwaerts de Paris, mostra como ele foi influenciado pelo pensamento de Proudhon, inclusive por suas idéias anarquistas. Vorwaerts foi um periódico que apareceu na capital da Franca durante ano de 1844 sob a direção de Heinrich Bernstein, o qual, inicialmente, não passava de um liberal desconhecido. Mas depois, após o desaparecimento de Anales Germano Fracaises, Bernstein contatou o antigo colaborador agora convertido à causa socialista. O periódico Vorwaerts tornou-se o órgão oficial do socialismo e um canal de divulgação das publicações de A. Ruge que tinha entre seus colaboradores nomes como Bakunin, Marx, Engels, Heinrich Heine, Georg Herwegh, etc. No exemplar número 63 (7 de agosto de 1844) Marx publicou um trabalho polêmico “Notas Críticas em um Artigo ‘O Rei da Prússia e a Reforma Social’Nesse trabalho, ele faz um estudo da natureza do estado e demonstra que o estado é completamente incapaz de reduzir a miséria social e extinguir a pobreza. As idéias que o escritor aponta no curso de seu artigo são inteiramente anarquistas e perfeitamente de acordo com o pensamento que Proudhon, Bakunin e outros teóricos do anarquismo desenvolveram neste sentido. Os leitores podem julgar por si próprios a partir do seguinte extrato do estudo de Marx: “O estado. . . nunca encontrará no ‘estado e no sistema de sociedade’ a cura para os males sociais. Onde existem partidos políticos, cada partido enxerga a raiz de cada mal no fato deles mesmos serem partidos de oposição e não no poder. Até mesmo um político radical e revolucionário buscará a raiz do mal não na essência da natureza do estado mas em uma determinada forma de estado, que eles acreditam substituir por uma outra diferente forma de estado. Do ponto de vista político, o estado e o sistema de sociedade não são coisas diferentes. O estado é o sistema de sociedade. Como o estado admite a existência de defeitos sociais, parece que eles tem sua origem primeiramente nas leis da natureza, que nenhum poder humano pode controlar, tanto na vida privada que não depende do estado, como nas atividades da vida administrativa, que também não dependem dele. Parece que na Inglaterra a causa da pobreza que atinge a população sempre  será atribuída às leis da natureza. A Inglaterra explica a pobreza como un mal necessário, enquanto que o Rei da Prússia a qualifica como uma consequencia dos hábitos não cristãos dos ricos, e fazem isto pela suspeita mentalidade contra-revolucionária de seus proprietarios. A Inglaterra pune o pobre, o Rei da Prússia demoniza o rico. Enfim, cada estado procura a causa da pobreza em um acidente ou em uma determinada mudança de administração, portanto, procura o remédio de suas doenças em medidas administrativas. Porque? Precisamente porque a administração é a atividade organizacional do estado.” 

 

Em 20 de julho de 1870, Karl Marx escreveu para Frederick Engels: “A França precisa de um tratamento. Se os prussianos saírem vitoriosos a centralização do poder nas mãos do estado ajudará no processo de centralização da classe trabalhadora alemã; futuramente, a predominância alemã será o centro de gravidade dos movimentos operários do Oeste europeu tanto na França como na Alemanha.  E basta comparar o movimento de 1866 com hoje ver que a classe operaria alemã é em teoria e organização superior a da França. Este destaque sobre a França no atual estagio do mundo significaria a prevalescencia de sua teoria sobre aquela de Proudon, etc.” 

Marx estava certo: A vitória da Alemanha sobre a França significaria um novo curso na historia do movimento operário europeu. Os revolucionários e o socialismo liberal dos países latinos estavam permeados pelo estatismo e pelas teorias anti-anarquistas do marxismo. Desta forma, o socialismo criativo foi quebrado por um novo dogmatismo ferrenho que proclamava possuir um completo conhecimento da realidade social, mas que na verdade se constituía em mais um embrulho de sofismas entulhados de uma fraseologia teológica e fatalista, determinada a se constituir na tumba de todo o pensamento genuinamente socialista. 

Em meio a estas idéias, os métodos do movimento socialista também mudaram. Depois dos grupos revolucionários voltados para a propaganda e para a organização das lutas econômicas, que via na internacionalização o embrião de uma futura sociedade e a futura organização da socialização dos meios de produção e exportação, veio a era dos partidos socialistas e representações parlamentares do proletariado. Pouco a pouco a velha educação socialista, passada pelos trabalhadores para a conquista da terra e seus ensinos, foi esquecida, substituída por uma nova disciplina partidária que tinha a conquista do poder político como seu mais alto ideal. O grande adversário de Marx, Michael Bakunin, viu claramente a eminência desse novo capitulo na historia da Europa iniciado com a vitoria alemã e a queda da comuna. Fisicamente exausto e face a face com a morte ele escreveu estas importantes linhas para Ogarev em 11 de novembro de 1874: “O Bismarskismo, que é militarismo, governo policial e um monopólio financeiro que fundiu um sistema sobre o nome de Novo Estado, não irá permanecer para sempre. Talvez em dez ou cinqüenta anos na instável evolução da espécie humana a luz da vitória volte a brilhar pelos caminhos. “ Nesta ocasião, Bakunin estava errado, falhou em calcular que levaria meio século até que o bismarquismo fosse estancado em meio a uma terrível cataclismo mundial. Da mesma forma que a vitoria alemã em 1871 e a queda da Comuna de Paris sinalizaram o desaparecimento da velha Internacional, a Grande Guerra de 1914 expôs a bancarrota do socialismo político. 

Algo verdadeiramente grotesco aconteceu, que pode apenas ser explicado em termos de uma completa ignorância sobre o velho movimento socialista. Bolsheviques independentes, comunistas e outros, finalmente apararam os cabelos desgrenhados da velha democracia social com uma vergonhosa adulteração dos princípios do marxismo. Procuraram isentar-se da culpa pela degradação e queda do movimento socialista nos corredores do parlamento burguês, falseando as atitudes de Marx e Engels para com o estado, etc., etc. Nikolai Lenin, o líder espiritual dos Bolsheviques, tentou dar sua versão de uma sólida base em seu famoso livro O Estado e a Revolução que é, de acordo com seus discípulos, uma genuína e pura interpretação do marxismo. Na forma de uma perfeita e ordenada seleção de citações Lenin proclama mostrar que “o fundador do socialismo cientifico” foi em todo o tempo declarado inimigo da democracia e do parlamentarismo moral e que o alvo de todos seus esforços era o desaparecimento do estado. 

Importante lembrar que Lenin descobriu isto apenas na época em que seu partido, contra todas as expectativas, viu-se a si próprio em uma vexatória minoria depois da eleições da Assembléia Constituinte. Antes disso, os Bolsheviques, como qualquer outro partido, participavam em eleições e tomavam todo o cuidado para não entrar em conflito com os princípios da democracia. Eles tomaram parte nas últimas eleições para a Assembléia Constituinte em 1917, com um grandioso programa, esperando levantar uma esmagadora maioria. Mas quando, a despeito de tudo isto, a casa caiu e eles viram-se relegados a uma minoria inexpressiva, eles declararam guerra à democracia e dissolveram a assembléia constituinte, com Lenin assumindo o estado e a revolução como uma auto justificação.

IV
 

“todo seu [Lenin] trabalho é pleno de 
erros e contra toda a lógica do pensamento humano”

Para ser mais claro, o papel de Lenin não foi nada fácil: por um lado, ele se viu forçado a fazer grandes concessões para as tendências anti-estatistas dos anarquistas, enquanto que por outro lado ele tinha que provar que sua atitude não tinha nenhum significado anarquista, mas puramente marxista. A inevitável conseqüência de tudo isso foi que todo seu trabalho é pleno de erros e contra toda a lógica do pensamento humano. Um exemplo disso foi seu desejo por enfatizar, tanto quanto possível, uma suposta tendência anti-estatista em Marx.  Lenin citou a famosa passagem oriunda da Guerra Civil na França onde Marx dava sua aprovação à Comuna para que esta evitasse reviver o parasitismo do estado. Mas Lenin não quis lembrar que Marx disse essas coisas naquela ocasião apenas porque estava em conflito com tudo aquilo que ele tinha dito anteriormente, sendo forçado a fazer concessões àqueles que apoiavam Bakunin que estava, por sua vez, engajado em uma grande luta.

 
Até mesmo Franz Mehring que não pode ser suspeito de simpatizar com os socialistas majoritários nega que aquilo tenha sido uma concessão. Em seu último livro referindo-se a Kark Marx, ele diz: “Verdadeiramente todos os detalhes daquele incidente comprometem, pela contradição, todo o pensamento de Marx e Engels desde o Manifesto Comunista um quarto de século antes.” Bakunin estava certo quando disse que: “o quadro da Comuna enquanto insurreição armada foi uma resposta aos marxistas que, em função da propagação das idéias revolucionárias em Paris, sabiam como a comuna funcionava. Eles pretendiam no futuro, em desafio à lógica de suas próprias convicções, fabricar uma espécie de identidade com a comuna adaptada aos seus princípios e aspirações. Foi um verdadeiro contrasenso, mas foi necessário. Eles queriam que as pessoas rejeitassem e repudiassem o entusiasmo revolucionário e o substituíssem pelo seu dogmatismo.”


 

“A Internacional foi a primeira tentativa de 
trazer os operários organizados de cada país juntos para um grande sindicato, o grande passo que traria a libertação econômica dos trabalhadores”

Lenin esqueceu também outra coisa, algo de suma importância nesse assunto. Foi precisamente Marx e Engels que intentaram forçar as organizações da velha internacional a irem para as atividades parlamentares, tornando-os diretamente responsáveis pelas conseqüentes divisões e enfraquecimento pela introdução do movimento operário socialista no parlamentarismo burguês. A Internacional foi a primeira tentativa de trazer os operários organizados de cada pais juntos para um grande sindicato, o grande passo que traria a libertação econômica dos trabalhadores. As várias divisões divergindo em pensamento e táticas, jogou por terra todas as condições para a realização deste trabalho conjunto que implicaria necessariamente no reconhecimento da total autonomia e independeria da autoridade de cada uma das varias seções. Quando essas coisas aconteceram a Internacional crescia poderosamente e florescia em cada pais. Mas tudo isso mudou completamente no momento em que Marx e Engels começaram a empurrar as variadas federações nacionais para dentro das atividades parlamentares; isto aconteceu pela primeira vez na lamentável conferencia de Londres em 1871, onde foi aprovada uma resolução fechada nos seguintes termos: “Considerando que a classe trabalhadora não pode agir contra este poder coletivo das classes proprietárias, enquanto classe, exceto por constituir-se ela própria em um partido político, diferente dos demais, e opostos a eles, todos os velhos partidos formados pelas classes de proprietários; esta constituição de classe em um partido político é indispensável de forma a assegurar o triunfo da Revolução Social e por fim a abolição de classes; a combinação de forças com a classe trabalhadora tem-se efetivado pela sua luta econômica ao mesmo tempo que servido como parâmetro para suas lutas contra o poder político dos donos da terra e dos capitalistas. A Conferencia proclama aos membros da Internacional: que em um estado militante da classe trabalhadora, seu movimento econômico e sua ação política são indissoluvelmente unidos.” 

Foi esta única seção ou federação na Internacional que tomou estas resoluções, embora esta incumbência coubesse apenas ao conjunto de todas as federações; a realidade foi que o Conselho Executivo impôs tal resolução a todos os grupos membros da Internacional, especialmente porque o assunto não foi submetido ao Congresso Geral, foi um ato arbitrário em contravenção aberta e frontal, claramente oposto ao espírito da Internacional e necessariamente tinha que provocar enérgicos protestos de todos os individualistas e revolucionários. O caloroso congresso realizado em Hague em 1872 coroou a obra desenvolvida por Marx e Engels transformando a Internacional em uma máquina eleitoral, incluindo um item que resultava em obrigar as mais variadas seções a lutar pela implantação do poder político. Assim, Marx e Engels foram culpados pelo esvaziamento da Internacional que provocou conseqüências desastrosas para o movimento operário.Foram eles os responsáveis diretos que provocaram a estagnação e a degeneração do Socialismo através da ação política.

VI 
Quando estourou a revolução em 1873, os membros da Internacional, quase todos os anarquistas, ignoraram as solicitações dos partidos burgueses e seguiram seu próprio curso através da expropriação da terra e dos meios de produção no espírito da revolução social. Greves gerais e rebeliões eclodiram em Alcoy, San Lucar de Barrameda, Seville, Cartagena e em toda parte, as quais foram contidas com derramamento de sangue. O porto de Cartagena permaneceu fechado por muito tempo nas mãos dos revolucionários até que finalmente caiu sob o fogo da marinha inglesa e prussiana. Nesta época, Engels lançou um duro ataque contra os Bakuninistas espanhóis em Volksstaat, dizendo-lhes que eles deveriam se juntar aos Republicanos. Tivesse vivido um pouco mais, como será que Engels se posicionaria diante da disciplina comunista a partir da Rússia e Alemanha? 

Depois da celebração do Congresso de 1891 quando os líderes da chamada “Juventude” foram expulsos do partido da democracia social alemã por exigirem os mesmos cargos que Lenin, eles fundaram um partido separado, o Der Sozialist, em Berlin. Inicialmente, o movimento foi extremamente dogmático e seu pensamento foi na maior parte das vezes idêntico ao pensamento do partido comunista de hoje. Se, por exemplo, consultarmos o livro Parlamentarista de Teistler e a Classe Trabalhadora, encontraremos as mesmas idéias apresentadas por Lenin em O Estado e a Revolução. Da mesma forma que os russos bolshevikes e os membros do partido comunista alemão, os socialistas independentes daquele tempo repudiaram os princípios da democracia, e recusaram tomar parte no parlamento burguês nas bases dos princípios reformistas do marxismo. Em uma carta a Sorge em Outubro de 1891, o idoso Engels passou a seguinte espécie de comentário:“Esses enjoados berlinenses agora passam de acusados a acusadores. Se quiserem fazer alguma coisa terão que fazer fora do partido. Sem duvida existem cripto-anarquistas em suas fileiras. No meio deles, há estudantes e toda sorte de insolentes.”

VII 
 

“foi o marxismo que impôs a ação
parlamentarista na classe trabalhadora”

É impossível caracterizar os métodos da velha social democracia. Nesse assunto Lenin não tem nada a dizer e seu amigo alemão muito menos ainda. Qualquer pessoa com conhecimento da historia concordará que foi o marxismo que impôs a ação parlamentarista na classe trabalhadora, preparando o passo seguinte que seria dado pelo Partido democrático social alemão. 

Apenas quando todos compreenderem isto concordaremos que: O SOLO DA LIBERTACAO SOCIAL ESPERA-NOS NA TERRA FELIZ DO ANARQUISMO A DESPEITO DA OPOSIÇÃO DO MARXISMO.

(1) W. Tcherkesoff: Pages d’Histoire socialiste; les precurseurs de 
l’lnternationale

(2) O artigo entitulado “IlManifesto della Democrazia”
foi publicado pela primeira vez em Avanti! (Year 6; number 1901, of 1902); 
 

(3) Rheinische Zeitung, number 289, 16 October 1842; 

(4) Marx: The Poverty of Philosophy, foreword; 

(5) Bray: Labour’s Wronszs and Labour’s Remedy
Leeds, 1839; 

(6) Marx and Engels: The Communist Manifesto, page 21; 

(7) Rheinische Zeitung, 7 January 1843; 

(8) B. Bauer foi um dos mais assíduos membros do círculo de Berlin “The Free”, onde proeminente figuras do mundo do livre pensar alemão (na primeira metade do século dezenove) podiam ser vistos; figuras como Feuerbach, autor de The Essence of Christianity, uma profunda obra ateísta, ou Max Stirner, autor de The Ego and His Own. O pensamento autoritário de Karl Marx colidiu com o pensamento libertário de B. Bauer e seus amigos, entre eles não podemos esquecer E. Bauer. Cujo livro Der Kritik mit Kirche und Staat [Uma Crítica da Igreja e do Estado] foi completamente confiscado pelos autoritários e proibido (primeira edição, 1843). A segunda impressão (Berne, 1844) teve melhor sorte. Mas não o autor, que foi sentenciado e aprisionado por suas idéias anti-estado e anti-igreja. (Notas do Editor); 

(9) O economista inglês J. B. Say, no dia que completou o trabalho de tradução para o alemão da obra de Max Stirnes. A fobia de Karl Marx pelo pensamento anarquista francês é manifesta, conforme sabemos, em sua Pobreza da Filosofia,uma critica da Filosofia da Pobreza de Proudon. Segundo o pensador alemão seu volumoso livro Documentos do Socialismo é uma vã e vergonhosa tentativa de menosprezar The Ego e His Own. Também se levanta contra sua sociologia, uma atitude bem discutível em um tempo onde muitos criticavam o estado e tentavam escapar de sua tirania (Nota do Editor)

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