DEPOIMENTO DE UMA USUÁRIA DO SUS


Era primavera de 2002, meu companheiro havia iniciado no serviço publico naquela semana, estavamos iniciando uma nova fase em nossa vida. No dia 25 de outubro daquele ano, por volta das 10h da manhã, logo após meu companheiro sair para o seu novo emprego eu percebi um sangramento vaginal, era uma hemorragia. Liguei no serviço de meu companheiro e pedi para ele retornar pra casa, para me acompanhar até o hospital municipal Tide Setubal, em São Miguel Paulista.

Chegamos no hospital ainda pela manhã. Fiz a ficha, até que não demorou muito, como não tinha muito o que meu companheiro fazer ali e eu estava consciente falei para ele retornar ao serviço, já que ainda estava no período de experiencia e nós dependiamos financeiramente deste serviço.

Não imaginava o que iria me acontecer após o atendimento médico, quando iniciou o que para mim foi o maior trauma de minha vida.

Fui examinada por ginecologista e logo em seguida tive que ser removida, meu companheiro foi avisado pelo próprio hospital, pois ele teria que retornar para me acompanhar na ambulancia. Ele chegou e a ambulancia ainda não estava disponível. Enquanto ficamos na espera, ficamos conversando com a funcionária do fluxo das ambulancias, que tentava nos tranquilizar, dizendo que “logo chega a ambulancia, é assim mesmo, estamos com 3 quebradas e a unica que dispomos foi levar um paciente lá no santa [marcelina]”. E nós fomos dando conta o tão sucateado estava o SUS, que a pouco tempo estava implantado no municipio, já que os dois prefeitos anteriores optaram por um sistema que foi a pior experiencia da saúde publica paulistana.

A ambulancia chegou e nosso destino foi o hospital Alipio Correa Neto, em Ermelino matarazzo. Demos entrada pela ermegencia e logo fui para o quarto de cirurgia. A primeira tecnica de enfermagem que entrou, mandou eu tirar a roupa, queriam tirar minhas pulseiras e tornozeleiras, o que não deixei, pois sou indígena e elas me acompanhavam há muitos anos e só iria tirar quando elas cairem naturalmente. A profissional insistia, “vc não pode ficar com nada disso” e foi cortando a de meu braço. Aquilo me deixou muito irritada, manifestei-me contraria a atitude e impedi ela fazer o mesmo nas demais. Enquanto isso meu companheiro esperava na sala de espera, lá na recepção do hospital.

A próxima funcionária entrou uns 30 minutos depois, com cara fechada e me dizendo “o que você é um pecado mortal, você vai queimar no inferno”. Perguntei porque me dizia aquilo e ela continuou a insinuações, “não se faça de desinformada, sua cínica!”. Eu fiquei sem entender o que se passava, até que entrou o cirurgião, me perguntando se eu havia tomado algum medicamento para provocar o aborto. Eu nem sabia que estava gravida e estava ali num interrogatório sobre eu ter provocado um aborto em mim.

E a sessão de tortura psicológica estava por piorar. Eu fui submetida a uma série de indagações, queriam porque queriam que eu confessasse um aborto que eu não provoquei. Nunca me imaginei naquela situação. “Melhor você confessar pra nós, logo chega os policiais aí e aí você vai falar, ah vai”, disse uma enfermeira que acompanhava o médico. Ficou nisso, eles querendo que eu confessasse um aborto que eu não provoquei. E tudo era novidade, nem sabia ainda que eu estava gravida.

Logo me prepararam a para a curetagem. Foi sem anestesia, aí senti dor, resolveram anestesiar, mas sempre com aquelas falas. Fui julgada e condenada ali mesmo, na sala de cirurgia do hospital. A essa altura eu já havia chorado tudo que podia, e aquele nó na garganta, as lagrimas ja não tinha mais. Após o procedimento fui levado para o quarto, fiquei no mesmo quarto onde outras mulheres que tiveram filho estavam. Outra tortura. As mulheres todas felizes com seus filhos e eu ali, soube que estava gravida no mesma hora que soube que estava abortando. A pior sensação de toda minha existencia.

Desde minha adolescencia eu defendo o aborto, mas não o meu, não o meu aborto. Eu defendo que quem opte por aborto, que tenha um atendimento pelo SUS, para não morrer com esses medicamentos e metodos arcaicos de provocar aborto em casa. Isso não significa que essa seria a minha opção. Minha militancia na defesa do aborto não significa que eu optarei por um aborto. Nunca tinha imaginado como as mulheres que fazem aborto são tratadas no serviço publico de saúde. São julgadas, sem direito a defesa e condenadas ao pior tratamento que eles possam dar. Talvez as saias cumpridas e cabelos longos das profissionais justifiquem o tratamento que me deram. Mas um serviço essencial, como a saúde publica não é espaço para os dogmas religiosos. Nem médicos, nem enfermeiros, nem funcionário nenhum deve levar seus prencipios reliosos para dentro das unidades de saúde. 

Pena que hoje eu não posso mover nenhuma ação contra o hospital ou contra a secretaria municipal de saúde, ou contra o MS. Não posso fazer nada, mais nada.

Após esse episódio na minha vida, caí em depressão profunda e quase 10 anos depois, tive óbito no mesmo hospital onde fui condenada por um aborto que não cometi, tomei todos psicotrópicos que pude encontrar na minha bolsa, entrei em coma por 3 dias, até o óbito. Isso mesmo, desta vez me suicidei, para vocês foi isso. Mas para eu e meu companheiro fui assassinada por aqueles que me julgaram e me condenaram a sessão de tortura por 3 dias naquele quarto de hospital.

(memórias postumas de uma usuária do SUS)

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2 respostas para DEPOIMENTO DE UMA USUÁRIA DO SUS

  1. muito triste e revoltante. Tudo isso precisa mudar, e vamos continuar lutando.

  2. Cris Roseno disse:

    Republicou isso em Minha Família Libertáriae comentado:
    Se sem o Estatuto do Nascituro esta é a realidade das mulheres que procuram o SUS decorrente a um aborto espontâneo ou não, imagine se este Estatuto que criminaliza ainda mais a mulher for aprovado. Veja bem, o aborto espontâneo ainda não é criminalizado (por ser espontâneo) mas mesmo assim a mulher que passa por ele e procura o serviço de saúde sofre uma série de violações dos seus direitos dentro da legalidade ( E nem estamos falando aqui do absurdo da criminalização da mulher que provoca um aborto). Assim como na violência obstétrica, esses maus tratos são agravados pela a negação do direito a um acompanhante durante todo o atendimento nos hospitais, que é uma diretriz do SUS. Em situações como o parto e o aborto as mulheres ficam mais suscetíveis a este tipo de violência por estarem em uma situação totalmente refém do corpo médico que se sente dono do seu corpo pela suposta defesa do “direito à vida”. Pela luta contra a tortura hospitalar sofrida pelas mulheres, somos contra o Estatuto do Nascituro e denunciamos o não cumprimento do direito ao acompanhante que ajuda a proteger as mulheres em situação de vulnerabilidade em ambiente hospitalar.

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