RELATO DE UMA USUÁRIA DO SUS


Acordei as 2h da madrugada, uma forte contração foi o que me despertou. Chamei meu marido: querido, chegou a hora. Logo ele foi pegando a bolsa, ja estava tudo pronto. Roupinhas do bebe, minha e de meu companheiro. Isso mesmo, o hospital que é de nossa referência tem o serviço de parto humanizado e li na internet que onde tem parto humanizado, o pai (ou outra acompanhante) pode ficar o tempo todo com a gente e ainda a criança não sai do nosso lado nenhum instante. 

Temos que esperar a “bolsa rota”, alertou-me. Meia hora depois senti descer por minhas pernas, era o liquido amniótico, a bolsa havia estourado e a essa altura as contrações estavam mais frequente. Não no ritmo apropriado para chegar na maternidade e já ficar. Soube de pessoas que não estavam com contrações de 5 em 5 minutos que não ficaram no hospital, voltam pra casa e só é atendido quando estiver de 5 em 5 minutos. Mesmo assim, fomos para maternidade do Hospital do M’Boi Mirim, pois as contrações não estavam na frequencia especificada, mas a bolsa já avia se rompido.

Cheguei na recepção as 3h30, quase 1 hora depois do rompimento da bolsa e quase 2 horas da primeira contração. Demorou um pouquinho pra fazer a ficha, pois era um sábado e como em toda periferia, sabado de madrugada chega vitimas de acidentes, tiroteios, brigas, sem contar que no inverno, o número de doentes crônicos nos hospitais tendem a aumentar. Chegou minha vez. Aí começa meu trauma.

Como assim? este cordão foi de minha avó, ela ganhou num terreiro de Umbanda, foi lhe dado pelo Preto Veio quando ela estava gestante de minha mãe e foi a proteção na hora do parto. Minha mãe usou também quando foi ter todos nós, eu e meus irmãos e agora eu terei que tirar? “Mãe, a senhora não pode ficar com este colar, pode ter uma infecção e prejudicar tanto a senhora como o bebê”, disse uma enfermeira que nem sei o nome, aliás pelo jeito nem ela sabia o meu, pois só me chamava de mãe. E quem vai me dar proteção? 

No fim, não pude ficar com brincos, não pude ficar com colar, não pude ficar com tornozeleira, nem com pulseiras… tudo que é de minha religião eu tive que tirar. 

Moça, ali na bolsa tem um pano, posso pegar? “Não precisa!”, a enfermeira era assim, curta e grossa, sabe. Vamos pro quarto, seu marido fica aqui esperando e na hora do parto a gente chama ele, a enfermeira não deixou meu marido me acompanhar. Fiquei estranho, pois me falaram que lá é Parto Humanizado e na entrada tem uma placa informando que é parto humanizado e parto humanizado a pessoa que vai como acompanhante pode ficar o tempo todo, pelo menos foi o que li e ainda, após passar pelo trauma, soube que a lei do SUS garante acompanhamento para todos os pacientes. E ali, que é humanizado? Bem, não discuti muito, foi para um quarto onde tinham uns equipamentos esquisitos. Até engraçados. Uma bola do Kiko. Um cavalinho… Ela disse que se eu quisesse poderia utilizar os equipamentos. E Saiu. Oxente! Como vou usar o que não sei? Nem sei pra que que serve aquilo tudo.

Não sabia, até que entrou outra “mãe”, todas nós tinhamos o mesmo nome. É “mãe” pra cá, “mãe” pra lá. As mais dóceis me chamava de mamãe ou mãezinha. Quando o tratamento era assim, a pessoa também era mais gentil, menos embrutecida. A mulher havia feito pré-natal numa casa de parto e lá ensinaram tudo sobre parto humanizado. Descobri isso só depois do nosso parto, ficamos conversando. Naquela hora que ela entrou nem eu nem ela queria saber de conversa. Era contração seguida de contração, uma dor sem comparação. Gostosa até, viu? Mas incomodava um pouco.

Ali, com aquela “mãe” que fez pré-natal numa casa de parto, onde provavelmente Parto Humanizado não está só placa de entrada, aprendi pra que servia toda aquela parafernália. Ela saía de um lá ia eu. Repetia o que ela fazia. A bola ajudou um pouco. Enquanto eu pulava me distraía e a dor da contraçao não incomodava tanto. Tudo aquilo para ajudar no trabalho de parto e nenhuma instrução durante o pré-natal na UBS, quem dera ali, naquele corre corre do PS. Acho que enfermeiros da maternidade só deveriam cuidar das mães e dos bebes. Não ficar pra lá e pra cá. E tiraram meus apetrechos religiosos dizendo que dá infecção. Elas podem ir pra lá e pra cá dentro do hospital. Levando baquitérias nas roupas por todo lado.

Eu queria estar com meu marido, mas só pensava nele nos intervalos entre uma contração e outra. Nem sabia onde ele estava e ele nem tinha ideia como eu estava.

Logo pela manhã teve a troca de equipe. Vamos ter que lhe dar um soro, pra ajudar no trabalho de parto. Ele vai aumentar as contrações. Já era outra enfermeira. Me chamou pelo nome… “Mãe”. Já até me acostumei, o problema era que havia mais 3 ali com mesmo nome.

“Mãe” vim pra te examinar e examinar o bebe. Passa esta fita na sua cintura! Ela me ajudou a levantar e perguntei pra era. Pra examinar o bebe. Curta. Depois veio e pegou um papel rabiscado que saiu de uma maquina onde estava conectado aquela fita na minha barriga. Depois fiquei de pernas abertas. Já estava com 8 de deletação. Veio o soro, e logo em seguida as contrações iam aumentando e a dor também ficava mais forte.

Eu gritava tanto. Fui levada até a banheira. Posso pegar na sua mão. Nem respondeu. Meu marido foi chamado. Mãe, vc está assustando as outras mães, para de gritar um pouco. O grito não tira a dor. Eu nem liguei para o que ela dizia. Gritei, agarrei meu marido pelas mãos. Dor, dor, dor, dor… Nasceu. Um prazer enorme, nunca havia passado por um parto antes. Ali estava em meu colo o meu filho. Meu marido cortou o cordão e deu o primeiro banho. Pai, agora o senhor precisa sair. Vamos levar o bebe para fazer exames e logo traremos ele de volta. E la vai eu ficar só.

Mas naquele momento nada tirava minha alegria. Pensei que nada tirava minha alegria.

Fui para um quarto onde estava outra “mãe” que acabara de perder seu bebe. Estava chorando muito. Eu acabei sentindo a dor dela. E me envolvi entre a alegria de ter dado a luz e a dor daquela mãe que acabara de perder o filho. Foi aborto espontaneo, aquele que a mãe não provocou.

Li uma vez que aborto pode ser provocado por medicamentos, por alimento, por violencia, mas também a poluição é um dos maiores causadores de aborto. Engraçado que tem um monte de gente contra o aborto, mas fuma perto de gestante, polui o ar. Tudo que provoca o aborto. Tem tanta hipocrisia no mundo. Eu não faço aborto. Só se eu for estuprada, ou a criança nao ter celebro, ou eu correr risco de vida. Fora isso, não faria não. Mas defendo o direito de quem quiser fazer aborto, fazer numa clinica, pelo SUS. Isso iria evitar morte de mulheres, principalmente a mulher negra e pobre como eu. Além de evitar também o aborto pós parto, que ninguém fala. Aquele abandono do pai. Abandono da mãe. Abandono da Familia. Abandono da sociedade. Aborto assim ninguém quer falar e eu não defendo.

Não via a hora de sair dali e denunciar sei lá pra quem que aquele serviço não tem nada de humanizado. Só não sei onde levar esta denuncia. Gostaria de receber contato de outras “mãe” que tiveram seu parto roubado naquele e em outros hospitais. Acho que conseguiremos pelo menos mudar o serviço.

As casas de parto é o ideal. Temos que cobrar por esse direito. O direito de decidir sobre nosso corpo, decidir sobre nosso parto.

Anúncios

Sobre União - Campo, Cidade e Floresta

Noticias das LUTAS DOS POVOS EMPOBRECIDOS - NO CAMPO, NA CIDADE E NA FLORESTA.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

2 respostas para RELATO DE UMA USUÁRIA DO SUS

  1. Josiane disse:

    Oi tenho 16 anos e vou te minha bebe no m’boi mirim já to com 35 semanas, e to morrendo de medo e gostaria muito que meu marido pudesse mim acompanha do começo ao fim !! Espero não fica sozinha lá dentro, pós eu não saberei oque fazer.

    • Josiane,

      a hora do parto é um momento único. Fique tranquila, isso é o mais fundamental. É importante você falar isso lá no hospital, que quer a companhia de seu marido, mesmo eles negando, você deve insistir nisso, pois é um direito que a mulher seja acompanhada por quem ela quiser e isso é muito importante para o casal e mais ainda para o bebe.

      Depois, nas proximas gestações você procura saber sobre as casas de parto humanizado. Sabemos que na região da zona sul há uma casa deste tipo, que faz parto humanizado, parto normal e que a mulher quem define tudo, inclusive que o acompanhante fique junto o tempo todo. Procure saber onde tem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s