DEPOIMENTO DE UM EX-ESTUDANTE DE ENGENHARIA SOBRE DESABAMENTO NA ZONA LESTE DE SÃO PAULO


Foram 10 operários mortos no desabamento da loja Torra Torra em São Mateus, zona leste de São Paulo. Foram também 10 filhos, 10 irmãos, 10 amigos, que ali teve sua vida interrompida não pela tragédia, mas pela má qualidade dos cursos de engenharia, negligencia das autoridades, ganancia e imprudência dos responsáveis pela obra e corrupção dos fiscais da prefeitura.

Em 2005 estava estudando o curso de engenharia elétrica, que tem os 3 primeiros anos junto com os matriculados em engenharia civil. O professor de calculo, enquanto escrevia na lousa, dava algumas dicas em economia no custos de uma obra e explicava como lucrar mais, o jeitinho brasileiro de subir na vida: “ferro é orçado por peso, então vocês fazem orçamento com uma bitola, na hora da execução, compra uma bitola mais fina, assim diminui no peso, que diminuirá no custo, aumentando seu lucro”, dizia o professor para os futuros engenheiros. Em outra aula, a orientação era “tem cimento para laje, cimento para reboco, cimento para fundação, vigas, colunas. Cada um com um preço, mas na prática é tudo a mesma coisa, orça com o mais caro, executa com o mais barato.” No mesmo ano, desabou um prédio no Pernambuco. Eu deixei o curso, pois desde professores a estudantes não via ética.

Um dos colegas, que fazia engenharia civil era do corpo de bombeiro, e fazia vistorias para emissão de laudos de alvará de funcionamento, certo dia ele me perguntou se eu conhecia alguém na subprefeitura que poderia ajudar nas aprovações de obras na região. “Sabe como é, né? Uma mão lava a outra”, isso mesmo, este estudante estava me oferecendo grana para eu apresenta-lo a um dos fiscais da subprefeitura onde eu trabalhava para ele poder fazer um “esquema” de burlar as regras de fiscalização de obras. E lá, na Subprefeitura de São Miguel Paulista, quando o “Tim Maia” era subprefeito havia um fiscal, o Ricardo, que recebia propinas nas obras na região. São Miguel Paulista teve uma verticalização neste período (entre 2002 e 2005), vários prédios ainda estão sendo erguidos. A região leste de São Paulo é a região que mais tem obras irregulares, mas só as obras de famílias empobrecidas, os famosos puxadinhos que são embargados pelos fiscais, as obras da especulação imobiliária, de shopping, prédios comerciais, etc são dado o jeitinho brasileiro. Aí ganha bombeiro, Fiscais da prefeitura, subprefeitos, agentes da defesa civil, empreiteira, proprietário em detrimento dos trabalhadores e usuários final.

Assim que se constrói em São Paulo. Assim que se arrisca a vida de trabalhadores, assim que coloca em risco a vida da população.

Sem contar as violações dos direitos trabalhista, a construção civil é o ramo que mais tem trabalhadores sem registro em carteira, está entre as que mais tem trabalhadores escravos, em condições precárias de salubridade, e é onde acontece maior índice de acidentes de trabalho não registrado.

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