Sacolão das Artes, regularização em cena


Por Eduardo Campos Lima,

De São Paulo (SP)

Em 2007, diferentes coletivos da região do Parque Santo Antônio, na zona sul de São Paulo, ocuparam um edifício que sediara um sacolão hortifrutigranjeiro, com a proposta de transformar o espaço em referência para movimentos artísticos e sociais da região. Nascia assim o Sacolão das Artes, que hoje abriga 11 grupos e numerosas iniciativas culturais. Neste ano, um passo decisivo foi dado para assegurar a permanência das atividades no local, com a aprovação, por órgãos da administração municipal, do pedido de cessão de uso do espaço.

Até o momento, a ocupação do Sacolão tem caráter precário. “Em 2010, com a constituição de um coletivo gestor do Sacolão das Artes, tivemos a clareza de que era necessário pleitear a cessão de uso do espaço à Prefeitura e fizemos a solicitação formal”, conta Maxwell Raimundo, ator da Brava Cia., um dos coletivos que ocupam o local.

   
   

De acordo com Márcio Luiz da Costa, chefe de gabinete da subprefeitura de M’Boi Mirim, a solicitação teve, recentemente, parecer favorável do secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, da Secretaria de Planejamento do município e também da própria subprefeitura. “Por conta disso, e até acatando o parecer do secretário de Cultura, fiz um parecer [favorável] e o subprefeito encaminhou. O processo está sendo devolvido para a Secretaria do Planejamento, onde ainda tramitará por algum tempo, mas já está definido: eles [os coletivos] terão a cessão da área”, afi rma Costa.

Segundo o chefe de gabinete da subprefeitura, deve levar alguns meses para o termo definitivo de cessão ser emitido, uma vez que o pleito ainda passará por instâncias administrativas. “Mas todos aqueles que podiam opinar favorável ou contrariamente já o fizeram”, explica. Costa pondera que a cessão de uso do espaço ainda poderia ser, eventualmente, contestada judicialmente por terceiros. “Mas, a princípio, está definido”, conclui. O coletivo gestor do Sacolão das Artes é representado, na solicitação, pela Cooperativa Paulista de Teatro.

Cultura, lazer e refl exão

A ofi cialização da permanência dos coletivos no Sacolão das Artes assegurará a continuidade de iniciativas direcionadas a crianças, jovens e pessoas da terceira idade. Uma delas é o projeto Aqui que a Gente Brinca!, que compreende oficinas lúdicas para crianças e abrange atividades artísticas e educativas, além de uma apresentação de teatro, dança ou contação de histórias todo mês. Paralelamente, os grupos estão estruturando uma brinquedoteca.

Outro projeto é o Corpo e Cultura, promovido voluntariamente por Rita Carneiro, membro do comitê gestor, que estimula mulheres idosas à prática de atividades físicas e recreação. “Há uma parceria com a unidade básica de saúde, que possibilita que as participantes façam controle de pressão arterial e vejam palestras sobre nutrição. Caminhamos pelo bairro para termos mais proximidade com nossa realidade”, descreve Carneiro.

 

 
   

Efigenia Bassani, moradora do bairro, aprova a iniciativa. “Já participo há quase dois anos. Quando fiquei sabendo do projeto e conheci a Rita, não deixei de vir mais”, conta. Na terceira sexta-feira do mês, Efigenia participa do Baile da Melhor Idade, uma extensão do projeto Corpo e Cultura. “Gosto muito e espero que continue por muito tempo”, afirma.

“Esse trabalho aproximou muito o Sacolão as mulheres do bairro. Sempre tivemos muitas crianças no espaço. Faltavam as mulheres, que fi zeram a história de mobilizações do Parque Santo Antônio”, define Maxwell Raimundo. Com frequência regular ao Sacolão, muitas mulheres começaram a tomar parte nas discussões relativas à gestão do local e às demandas do bairro, integrando- se aos espaços de debate e reflexão política incentivados pelos ocupantes.

“Diversas iniciativas do Sacolão criam um vínculo forte de resistência. Tornouse um espaço em que as pessoas são sujeitos participantes das lutas do bairro”, explica Raimundo. Há movimentos populares presentes no Sacolão das Artes, como o Coletivo Catu, que se volta à formação e educação política, e o coletivo feminista Maria-Mariá.

Entre os coletivos artísticos, o Sacolão sedia, além da Brava Cia., a escola de samba Cacique do Parque, em grande parte formada por jovens que aprendem a tocar instrumentos de percussão no próprio espaço, o programa Casa de Arte e Paladar – constituído pelos núcleos Pão e Poesia e Tear e Poesia – e o coletivo de circo Trupé na Rua.

“Todos os coletivos têm a chave do espaço – e todos têm representação no coletivo gestor”, aponta Josiel Medrado Cantão, da Casa de Arte e Paladar. As reuniões do coletivo gestor ocorrem a cada15 dias e intercalam encontros para reflexão aprofundada dos rumos do espaço com discussões mais cotidianas. Um estatuto produzido coletivamente pelos grupos norteia as deliberações.

Lutas históricas

A luta por um espaço de produção e reflexão sobre cultura insere-se numa longa história de reivindicações populares no Parque Santo Antônio e bairros vizinhos, iniciada no fim dos anos 1960.

“Foi no fim daquela década que essa região estourou como área de mão de obra barata para as fábricas da avenida Nações Unidas. Nos anos de 1980, com a robotização, computadorização e otimização das fábricas, a mão de obra barata virou sucata e foi jogada para lá. Daí resultou uma grande onda de desemprego”, lembra o padre Jaime Crowe, desde 1970 ligado às mobilizações no bairro.

Na primeira metade da década de 1970, foram realizadas as primeiras assembleias populares na região, tratando de temas como transporte, coleta de lixo e regularização fundiária. “Em 1974, começou o movimento contra a carestia, que nasceu das comunidades eclesiais de base, numa época de alta inflação. Dizia-se que os preços subiam pelo elevador e o salário subia pela escada”, conta o padre Jaime.

As expressões artísticas sempre andaram lado a lado com as mobilizações. “No próprio movimento da carestia, as encenações sempre foram muito importantes. Praticamente toda assembleia se iniciava com uma dramatização. Isso sempre esteve presente na história da luta do bairro”, afirma padre Jaime.

“Os movimentos tiveram muitas conquistas, embora a região não tenha atingido condições ideais. Mas tinha algo que faltava: o acesso às condições de produção de cultura. Dentro dessa perspectiva de luta existente no bairro, as pessoas tomaram consciência disso”, aponta Maxwell Raimundo.

Durante muitas décadas, a região inteira contou com apenas uma sala teatral, lembra o ator. “Para ir ao teatro, a pessoa tinha que ir lá ou no centro. Daí surgiu essa necessidade de lutar pelas artes”.

Para Raimundo, uma mudança conjuntural na periferia, na virada da década de 1980 para 1990, também reforçou a demanda por cultura. “A periferia começou a se afirmar fortemente como um lugar não só de violência, mas também de produtores culturais e de pessoas interessadas em arte. Percebemos que tínhamos o que falar, mas não tínhamos onde falar”, explica.

“Há dez anos, não tinha nenhum teatro, nenhum Sacolão das Artes. O que havia era os bares – e por isso esses foram os espaços para os saraus e outras atividades culturais”, acrescenta Josiel Cantão.

Nesse quadro, a criação do Sacolão das Artes e sua oficialização definitiva por meio da cessão de uso desempenham papel fundamental na história de lutas da região. “É importante que o Sacolão das Artes torne-se um lugar de referência. O pessoal tem muita boa vontade e tem condições de fazê-lo ser um centro popular de articulação e de organização para o bairro”, conclui o padre Jaime.

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