O Muro da vergonha da Antonio Manoel


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por Beth Silva

Um muro transforma o cotidiano da Escola Antônio Manoel Alves de Lima, no Jardim São Luis, zona sul de São Paulo, desde a semana passada, quando os estudantes chegaram pela manhã e estava um monte de material de construção na frente e a construção do muro iniciada no pátio da escola.

 

Segundo a diretora da escola, Valdete o muro é para impedir que jovens entram na escola e ela vai aumentar os muros da divisa com a ONG Fundação Julita. A diretora afirma que nos fins de semana a Fundação Julita deixa a comunidade entrar em suas instalações e alguns desses são jovens usuários de drogas e pulam para dentro da escola para usar drogas.

 

Segundo a comissão do movimento estudantil da escola, a diretora não colocou a obra em discussão, nem com a comunidade nem com o conselho de escola, burlando assim as legislações vigentes. Alegam ainda que a obra só irá piorar a situação dentro da escola. A estudante A. M. O., de 17 anos disse que “a única escola da região que ela não se sente numa prisão é a Antonio Manoel, com este muro, a diretora vai acabar com sensação de liberdade que temos”. Para W.P.C. de 16 anos “o muro não irá resolver o problema de saúde e social que é o uso de drogas por adolescentes, eles podem não fumar na escola nos fins de semana, mas irão continuar fumando por aí, aí sim vai virar caso de polícia, pois o que vemos em nosso bairro é usuários de drogas sendo assassinados nos becos, vielas e esquinas. Para o adolescente, o problema ainda será maior, já que vai trazer transtornos psicológicos para os alunos, “nós estamos acostumados com a ventilação, com a luz do sol, o verde das arvores lá do Julita”, se lamenta o garoto, “o muro irá nos tirar tudo isso”.

 

Bruno, de 18 anos, disse que não pode fechar o pátio por conta da poluição sonora, “na hora do intervalo, quando tiver 700 alunos conversando, ouvindo música, cantando, gritando, ninguém vai suportar o barulho”, diz o aluno que é especialista em acústica, “nós ainda temos este sinal da escola, que já está numa amplitude elevada, vai estourar os tímpanos aqui dentro”.

 

Hoje pela manhã todos os estudantes realizaram um ato de protesto contra a construção do muro, que já tem três partes concluídas. A direção da escola chamou professores para persuadi-los a denunciar se algum professor estava envolvido na organização dos alunos. A prática desta diretora, de chamar funcionários e pressioná-los para entregar colegas nós só vimos na ditadura militar.

 

Valdete, após sentar com os professores e pressioná-los, chamou a nossa comissão para dialogar, mas foi intransigente em relação a obra e não quis atender as reivindicações dos discentes. “Vamos conversar com os responsáveis, pois os alunos são menores e não podem se manifestar”, bradou a diretora na sala. Mas será que ela não sabe que desde 2000, os adolescentes tem participação política no Brasil, podendo votar? Se adolescentes de 16 anos podem votar, eles podem ser seus representantes e se manifestarem contrários a construção do muro.

Victor, 17 anos, que é membro do conselho da escola, disse que nunca foi discutido nada nas reuniões do conselho e ele sempre participou. “Para mim, o que mais pesou foi a diretora não ter colocado em pauta na reunião do conselho e tem mais, este conselho é uma grande farsa, já que nunca os diretores colocaram algo em discussão, ela só nos informa o que vai fazer e o que não vai”, denuncia o aluno, que desde a quinta serie do ensino fundamental que tem participação ativa na escola.

Para Carol, 18 anos, “a direção sempre se portou como se fosse a proprietária da escola, nem me sinto numa escola pública, as vezes”, a aluna lamenta a falta de dialogo da direção com eles, “no mês passado foi o caso do Marcos, o zelador que ameaça e agride os estudantes, fomos denunciar para ela e ela fez vistas grossas, o criminoso continua aí ameaçando e agredindo os estudantes e a Valdete sabe de tudo”.

 

Os alunos disseram ainda que a diretora é uma ameba, pois ela mesmo disse para todos nós que “a escola não tem extintor de incêndio, eu tenho que providenciar”, assumindo a responsabilidade num caso de fogo na escola. A professora que estava presente, como testemunha a pedido da diretora falou “que a falta de extintores de fogo é mais um motivo para não fechar toda a escola”. Mais uma denuncia que devemos levar à frente, “a falta de extintores pode colocar nossa vida em risco”, disse a aluna L., de 18 anos, que gosta de sentar nos bancos lá no jardim que ela ajudou a construir dias atrás, quando participou de mutirão patrocinado pela ALCOA e Instituto Ellos, “com este muro, terei que ficar dentro da prisão, sem ter sol, vento, flores e arvores, além do monte de pássaros que escutamos cantar ali fora”.

 

Perguntamos porque a escola não tem um grêmio, a aluna Maria Aparecida, de 19 anos disse que “os estudantes que participam no conselho são a diretora e professores que indicam, escolhem os mais bonzinhos, que não representa a maioria, se tivesse um grêmio, não seria diferente, esta diretora ira deitar e rolar”, relata a aluna, que sempre quis montar um grêmio na escola, mas foi sempre impedida pela direção e “nunca tivemos apoio deles”, finaliza.

Os estudantes cogitam irem se manifestar na rua, “já que aqui dentro da escola não podemos, somos impedidos por esta direção autoritária”, fala a representante da comissão, que prepara um novo ato ainda para esta sema, “mas desta vez vamos para a avenida as 7h da manhã”, nos informa indignada, “queremos mostrar para esta diretora o que é uma escola pública, com participação popular e democrática”, finaliza a líder do movimento.

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