Quando a aula quem dá são os estudantes


Quando não tem diálogo, a aula quem dá são os estudantes

 por Sassá Tupinambá*

1456802_237792623047084_522926546_nNa minha adolescência, quando eu iniciei meus estudos sociais, participando dos movimentos de moradia e estudantil na zona leste de São Paulo, no início dos anos 90’s, acreditava que a educação seria a alavanca que moveria o mundo. Ingressei-me no curso técnico do magistério, tive acesso as teorias pedagógicas, que logo depois fui colocando em prática, mas 2 dos pedagogos que estudei me inquietavam, Ferrer e Freire e descobri que esta educação é colonizadora.

 

Foi durante os estágios que fui percebendo que a educação que o estado oferece, não se trata daquela educação que nos serve de ferramenta para a transformação, pelo contrário, esta educação é a responsável pela alienação de nossa classe. Ela serve apenas o sistema e suas fabricas, monoculturas e construções. Nos tornam robôs, todos iguais na linha de produção, mas só na linha de produção, porque fora dela, somos tão desiguais quanto os dedos de nossas mãos.

 

Esta desigualdade é bem nítida na escola. Primeiro a gente chega cheio de ideias e ideais para dar aula, ideias essas, formuladas a partir das leituras durante o curso e junto a militância dos movimentos populares. Mas na escola, não temos com quem dividir nossos anseios e ideias, pois os colegas da categoria são muitos fechados as ideias. Para piorar, a direção é indicação, cargo de confiança, que é mantido por políticos. Assim não participam no desenvolvimento pedagógico da escola, não estão ali preocupados com a educação, mas sim para oprimir, ser o Estado dentro da escola.

 

Os colegas de trabalho são vítimas deste sistema. São formados no mesmo regime, nunca tiveram acesso a leituras de pedagogos e pensadores como Paulo Freire, Francisco Ferrer e tantos outros que se dedicaram a pensar uma educação libertadora, que levasse à busca do conhecimento pleno e que esse conhecimento servisse de ferramenta para transformar, radicalmente a sociedade. Se tiveram acesso, não foram capazes de fazer reflexão coletiva, que os levasse a práticas coerentes com o pensamento destes libertários. São mão de obra, que não foram para as fabricas, campo e construções, mas ficam nas escolas reproduzindo aquilo que foram ensinados a reproduzir, mao de obra para as fabricas, campos e construções, desprovidas de conhecimentos capaz de libertar individualmente e coletivamente. Reproduzem a mesma opressão a que foram submetidos no seu tempo de secundarista. É a mesma opressão, só o que aprenderam como intelectuais foi a reproduzir a opressão, e a manifesta da forma mais covarde.

 

Assim são os professores da Escola Antônio Manoel Alves de Lima, com conhecimentos limitados, incapazes de cogitar uma pedagogia libertadora, como fez Paulo Freire. Incapazes inclusive, de reproduzir um décimo do que Paulo Freire teorizou. Mas pobres coitados, suas limitações se dão porque eles são vítimas deste sistema educacional colonialista, vítimas e hoje são os principais colaboradores deste sistema. São cegos que não querem ver e que se mantem com as tapas na visão. Uma visão tão retrógrada que não conseguem enxergar a tolice que estão fazendo ao menosprezar a organização dos estudantes contrários ao muro da vergonha, que a diretora insiste que irá resolver o problema de tráfico de drogas e a depredação da escola.

As diversas ameaças que estes estudantes receberam por e-mail e redes sociais, os deboches dos professores em sala de aula e durante o ato do dia 2, a coação e constrangimentos que os docentes da escola cometeram contra esses adolescentes, burlando as diversas leis, entre elas o ECA, que diz que as crianças e adolescentes não serão coagidas, constrangidas e impedidas da participação política na escola é uma vergonha para a categoria. Esta postura, vai de contra todos os direitos garantidos no ECA, uma violação dos direitos humanos dos alunos.

 

Mas na escola Antonio Manoel, os professores ridicularizam os estudantes, chamando-os de “nada”, de “ninguém”. Marido de professora ameaça estudante através da rede social Facebook, o chamando para ir conversar numa  rua próxima a escola, que tem um grande terreno, onde é usado para desova de cadáveres. Se isso não pode ser entendido como uma ameaça de morte, o que é então?

 

A direção, sem preparo nenhum, chama a polícia  durante reunião que discutia o muro da vergonha, para coagir a ação dos estudantes, de denunciar as violações de seus direitos humanos praticados pela direção e professores da escola e se posicionarem contra o muro. Os dois policiais ficaram, durante toda a reunião, ao lado da diretora, como se estivesse a protegendo, mas estavam ali como cães de guarda, para assustar, para coagir, para oprimir.

 

Nos meios políticos que infelizmente tenho contato, nunca presenciei tanta sugeira, quanto há neste processo de luta dos estudantes contra a construção do muro. A direção da escola usa de todos os recursos sujos possíveis para manter seu posicionamento. Posicionamento este muito estranho, pois diversos foram os argumentos que apontam que a solução não está no muro, pelo contrário. O Muro agora se tornou o maior problema dentro da escola, pois os estudante tem toda razão em seus argumentos. O muro da vergonha não irá impedir que droga entra na escola, pois as drogas não entram pela Fundação Julita, como a diretora quer que todos nós acreditamos.

 

Devemos ficar atentos, porque soube de alguns professores, de outras escolas, que diretores fazem reformas e pequenas construções nas escolas, sem licitação, que é obrigatória para obras públicas. Alguns colegas relataram que a diretora numa dessas escolas, era casada com o dono da construtora que estava executando a obra. Daí a importância de cobrar transparência nesta obra que a diretora já foi convencida que não é solução, mas ela não abre mão.

O garoto que chegou e disse que a mãe dele não foi convocada para a reunião, justificou o porquê que pais membros do conselho não estiveram presentes. Sem contar que o horário agendado impossibilitou quem trabalha comparecer. Os votos foram, majoritariamente de professores e especialistas. Todos aliados da direção. Uma votação viciada, digna de impugnação.

 

Vergonhoso para a categoria, ver um professor pedir a palavra durante a reunião para coagir e ridicularizar a ação dos estudantes, dizer “porque eles não fazem manifestação para impedir que os colegas cabulem aula”, ou “porque vocês não se manifestam quando os colegas de vocês atrapalham a aula do professor”. Ora, o que evita que cabulem aula é ter professor em sala que contribua para a aquisição de conhecimento, é ter boas aulas, boas atividades extracurriculares, ter algo de interessante para que as pessoas se interessam ficar as quatro ou cinco horas que tem que permanecer na escola. O mesmo serve para fazer com que contribuam e participam nas aulas, um bom educador é atrapalhado na sala de aula, mas ele não faz disso sua chibata para descontar nos alunos toda a opressão que sofre no local de trabalho, no ambiente doméstico e que sofreu em seu tempo de aluno. Que este professor pensa? Que é melhor que o aluno? Ele acha que sua aula é tão boa assim, que ninguém pode atrapalhar? Garanto que poucos estudantes aprendeu biologia com ele. Aliás, quem aprende algo com um arrogante à frente?

 

Vergonhoso para a categoria, ter colegas que coagem a participação política dos estudantes dentro da escola. O que se passa na cabeça de um docente que grita para o aluno que ele não é ninguém? O que se passa na cabeça de uma diretora que telefona para o aluno fora do horário letivo, pede para ir até a escola e em sua sala causa todo tipo de constrangimento e obriga o aluno a abrir em sua frente a página do grupo de organização dos alunos e escrever um recado, dizendo que tudo iria ser resolvido na reunião, falando para os colegas que foi tudo acertado por ele e a diretora? O que se passa na cabeça de uma diretora, que impõe uma lei publicada em plena ditadura militar, para professores que se manifestam favoráveis à manifestação dos estudantes?

Estes professores conservadores, retrógrados são vítimas  e estão fazendo mais vítimas. Uma pena. Pois se fosse no meu tempo que lecionava, eu parabenizaria toda essa garotada, que está dando uma aula de cidadania e participação direta na política, da escola e consequentemente, da sociedade. Sem que a direção se quer dialogue um instante.

* militante na defesa dos Direitos Humanos, Militante do Tribunal Popular e Movimento Indígena Revolucionário

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