E QUANDO AS LIDERANÇAS INDÍGENAS SE TORNAREM UM MANDELA?


Estamos assustados! A burguesia transformou uma das principais lideranças do movimento negro mundial em um democrata, no pior sentido da palavra. Coverteu-o naquele que incondicionalmente tolera a violência. Metamorfoseou-o em uma espécie de Gandhi (no pior sentido de sua história) que toma todas as porradas dos opressores e não revida.  Vestiu-o de herói e abandonou toda sua trajetória de luta, bem como a resistência de outras organizações e povos que ainda marcam presença na África do Sul. Dando-nos uma sensação de que os racistas deixaram de existir. É como se o alvorecer de 1994 não trouxesse mais o preceito político racista que esteve no poder durante decadas. Tudo isso, em nome de algo maior, tudo isso em nome da DEMOCRACIA.

O guerrilheiro Mandela, preso na África do Sul, nos anos de 1970, é alguém que deve ser esquecido! Já o ser pacíficador, “Prêmio Nobel da Paz, “este sim deve ser reverenciado, sem restrições. Afinal, o que significam 27 anos de cárcere, senão a melhor forma de transformar alguém em um grande Estadista? Não estamos aqui tratando de qualquer julgamento moral, é claro. Estamos sim, refletindo politicamente sobre a (des)construção de um sujeito histórico.

No último dia 01 de dezembro, por exemplo, perdemos mais um guerrilheiro indígena no Brasil, o CACIQUE AMBRÓSIO, liderança Kaiowá-Guarani que foi morto no sul do Estado do Mato Grosso do Sul. Por acaso, alguém ouviu sequer uma manchete ou chamada nos grandes jornais sobre este lutador pelo fim do apartheid indígena, militante da emancipação de seu povo? Ambrósio foi brutalmente assassinado antes mesmo da possibilidade de se “arrepender” da luta ofensiva e se tornar um “grande político”, nos moldes projetados pelos opressores, os mesmos que nos dizem, e por vezes nos ensinam, quem deve ser apreciado e quem deve, ou não, ser respeitado.

E é neste momento que nos perguntamos: quem, frente aos assassinatos, estupros, miséria extrema, fome, contaminação de solos e das águas, violência policial, racismo, e tantas outras condições monstruosas que marcam o cotidiano indígena, se tornará, na hipótese de sobreviver, daqui a alguns anos, o “bom homem Mandela Indígena brasileiro”? De fato, algumas organizações que se dizem indígenas já estão trabalhando nesse sentido e certamente esta será mais uma máscara que cairá no momento em que alterarmos a correlação de forças ora estabelecida.

Chega de besteira! Basta!

Hoje, são mais de trezentas nações que resistem ao apartheid indígena no Brasil – não no sentido jurídico estrito, mas sim, nas condições estruturais da sociedade. E estes distintos povos seguem em guerra. Assim sendo, a principal semelhança entre a situação sul-africana e a brasileira, passa não só pela segregação supostamente vencida pela igualdade formal da lei. Trata-se também de um ininterrupto processo de extermínio dos povos originários, estes que resistem a violenta imposição de suas identidades, somada a expropriação de suas terras, sejam aqueles que hoje permanecem em seus territórios sob ocupação brasileira ou sul-africana. A diversidade e a alteridade desses povos são massacradas com vistas a obediência, democracia e subserviência ao desenvolvimento do capital.

Deste modo, é fundamental uma reflexão sobre o que significa “ser brasileiro”. Do ponto de vista histórico, esta ideia não ultrapassa os últimos 200 anos. Lembramos aqui, que até o início do século XIX ninguém se reivindicava “brasileiro”. Entendemos que o “ser brasileiro” é uma recente e eficiente invenção opressora de nossa história, que como tantas outras formas ideológicas tiranas tem eco e se reproduzem como “verdade absoluta”, assumindo determinados sujeitos e negando outros.

Estima-se que no período pré-colombiano, existiam mais de mil nações naquilo que hoje chamamos de Brasil. Passados mais de 500 anos de um projeto (em curso) de exploração e acumulação de riquezas para uma determinada classe, estas nações foram reduzidas a aproximadamente 300 povos. Sendo que, dentre estes, em torno de 20 etnias permanecem isoladas, sem contato direto com este projeto em questão. Os demais povos, encontram-se em estado de guerra! E talvez, justamente por isso, vivos! Aqui, ao que parece, índio bom é índio morto.

Seja na África do Sul, seja no Brasil, estamos cercados de abismos sociais. Logo, não podemos nos respaldar em idealismos políticos e jurídicos que não correspondam à realidade. Isto é, ações políticas e jurídicas que não sejam pensadas a partir das condições reais e necessidades primárias de cada nação, não passarão de um capricho daqueles que estão no poder. E neste caso, torná-los cidadãos civilizados, eleitores, ou sujeitos que deliberam, mais ou menos, sobre determinadas questões – por meio de portarias e convenções – não resolve estas profundas diferenças. Sem o acesso a terra e a garantia de permanência nela, a possibilidade da reprodução dos povos está ceifada e como consequência a produção de seus conhecimentos definitivamente estará perdida.

Ou assumimos a guerra que está dada, ou enterramos junto com Mandela, Ambrósio e tantas outras lideranças que já tombaram em luta pelos direitos de seus povos, a possibilidade concreta de transformação de nossa sociedade.

 

VIVA TODOS OS GUERRILHEIROS!

 

Abaixo depoimento do Lutador Kaiowá e Guarani Ambrósio.

https://www.youtube.com/watch?v=et2j2SSb_Hs

 

Eduardo Carlini e Natália Freire Bellentani  

Membros da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção São Paulo

Militantes do Tribunal Popular: O Estado Brasileiro no Banco dos Réus

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